sábado, julho 14, 2018

Dia de casório

Há uns dez anos, fui convidado para o casamento de uma colega. Não éramos próximos, mas trabalhávamos juntos, então fui chamado.

Eu e Carla nos encontramos e fomos de táxi para Botafogo. O motorista nos deixou na rua e nos aproximamos de um portão que guardava o jardim de uma bela capela. Perguntamos a um homem que estava ali: “É aqui que vai ter um casamento?” Ele confirmou e subimos a ladeira até a capela.

Sentamos num banco do meio e esperamos. Esperamos muito, e nada da noiva chegar. Um cara no banco da frente estava conversando com as pessoas do nosso lado, ofereceu bala para elas, ofereceu pra gente mesmo sem nos conhecer. Nós aceitamos para passar o tempo.

Enfim, continuei esperando. Mas finalmente começou a tocar a primeira música. Entrou o noivo com a mãe, depois o pai dele com a mãe da noiva, a procissão de padrinhos. Era chegada a grande hora. Ouviram-se os primeiros acordes da Marcha Nupcial, as portas da igreja se abriram e a noiva entrou com o pai.

Na mesma hora, falei pra Carla: “Amor, essa não é a minha colega!”
A gente tinha entrado no casamento errado!

Esperamos os dois chegarem ao altar e, de forma discreta, saímos da capela – se é que dá pra sair discretamente logo depois que a noiva chegou. Começamos a rir muito e fomos tentar descobrir onde era o casamento mesmo. Descobrimos que era um pouco mais à frente, que o local não era uma igreja e que a cerimônia já tinha acabado...

Envergonhado, contei o ocorrido a um conhecido lá e ele simplesmente disse: “Acontece.”
Acho meio difícil isso ser comum, mas sempre conto pras pessoas darem boas risadas.

domingo, julho 08, 2018

O lago da casa

– Olha que legal, mãe, um lago!
– Lucas, não se apoia na janela, é perigoso!
Mamãe me arranca do parapeito e me dá um puxão de orelha.
– Ai! – berro e esfrego a orelha.
– O que é isso? – pergunta papai ao corretor.
– É um terreno abandonado. Uma construtora ia fazer um hotel, mas a obra foi embargada e, com as chuvas, vai acumulando água. Mas não se preocupe: a Prefeitura sempre faz vistoria e tem até peixes aí para comer possíveis larvas.

"A obra foi embargada"? Já ouvi mamãe falar que titia estava com a voz embargada por causa do choro. Será que todo mundo começou a chorar e não deu pra continuar a obra?
Mas o que me interessa mesmo daquele monte de palavras são os peixes. Então é um lago mesmo! Imagina, a janela do quarto de casa dando pra um lago!

– Pai, mãe, vamos comprar, eu quero um lago!
– Filho, temos que pensar ainda qual é o melhor apartamento, tá? – responde papai. – Obrigado, já está bom, nós vamos agora – completa ele ao corretor, e vamos embora.

No caminho para casa – que em breve não será mais nossa casa –, fico calado visualizando o lago: uma água verdinha cheia de plantas, umas colunas pequenas de pedra com passarinhos pousados... Nunca vi nada parecido no meio da cidade. Nas ruas mesmo mal tem árvores.
Não sei se por minha insistência ou por causa de outra coisa, meus pais resolvem comprar a casa do lago.

Sabendo que eu vou querer admirá-lo todo dia, eles deixam a porta do quarto deles trancada pra eu não cair na tentação de dar uma espiada sem ninguém perto.
Passarinhos dando rasante pra beber água, peixes ondulando, libélulas sobrevoando... aparece até uma garça alguns dias!

Um dia acordo de um dos meus sonhos com vontade de ir ao banheiro. No caminho, escuto meus pais cochichando.

– Rui, você soube que os vizinhos estão reclamando do terreno? Mesmo tendo controle da Prefeitura, parece que conseguiram na Justiça que aterrem tudo. Sabe como é, pessoal paranoico com dengue, essas coisas... Vão acabar com o lago.
– Caramba... Coitado do Lucas. Ele vai ficar inconsolável.

Eu não sei o que é inconsolável, mas sei que estou triste, muito triste. Começo a chorar e até esqueço do xixi.
– Lucas, você tá acordado? – pergunta mamãe, aparecendo na porta da sala.
Acho que é com a voz embargada que solto minha dúvida:
– Mãe, árvore dá dengue?
– Não, filho, é quando tem água parada... – começa ela, mas eu a interrompo:
– Então por que não tem árvore nenhuma na rua? Por que a gente não vê natureza por aqui? Por que querem matar o lago?

Mamãe fica em silêncio. Papai continua calado, então fala:
– Você quer que eu te leve lá?
Na mesma hora minhas lágrimas secam. Eu ergo os olhos.
– A gente pode ir?
– Eu dou um jeito.

Alguns dias depois, papai "mexe os pauzinhos" (não sei o que pauzinhos têm a ver com a história) e conseguimos entrar no terreno com uns funcionários da Prefeitura.

Paro na beira do lago, observando maravilhado. Levo um susto com um passarinho que dá um rasante em mim, então começo a rir. Pego a câmera do papai e vou tirando foto atrás de foto pra registrar o grande evento. A garça dá o ar da graça e surge, andando no seu passo lento, com certeza querendo pegar um dos peixes. Fecho os olhos e inspiro fundo para sentir todos os cheiros.

Então abro os olhos e vou mais até a beirinha, me abaixo e arranco um talinho de planta. Guardo de recordação na minha carteirinha.
Quando me levanto, um bem-te-vi começa a cantar. Eu sei que está na hora de ir embora.

domingo, julho 01, 2018

Inveja branca

"Quando oiei meu amigo lendo
Em Paris numa mansão
Eu invejei, meu Deus do céu, ai
Mas que tamanha ostentação

Falam que é inveja branca
Todo mundo usa a expressão
Isso num disse
É só modinha
Conheço bem
Meu coração"

sábado, junho 30, 2018

E segue o baile

Sexta à noite na volta do trabalho, estou subindo as escadas do metrô da Afonso Pena quando me deparo com uma cena inusitada: uma garota está dançando balé na saída da estação para divulgar uma escola de dança próxima. Levanta a perna lá no alto, rodopia várias vezes.

Não sei o que dá em mim, mas me sinto como se estivesse em casa dançando de palhaçada e, mal subo o último degrau, dou um salto e faço uma pirueta. Na mesma hora a garota estaca, quase se desequilibra, e os outros integrantes da escola me encaram entre chocados e risonhos com os panfletos nas mãos.

Vendo que estou vestido a caráter para a festa junina que aconteceu no trabalho, uma menina grita:
– Tá debochando, caipira? Agora vai ter que dançar forró!

Ela me puxa para uma dança e, antes que eu possa impedir, estamos sacolejando de um lado para outro ao som de uma gaita que surgiu sabe-se lá de onde. As pessoas que passam aplaudem. Quando me vejo livre, faço uma reverência e vou embora.

Você deve estar pensando: “Não é possível que o Gabriel fez isso.”

Pois é, não é mesmo. Isso tudo só foi minha imaginação insana quando vi a menina dançando balé.

segunda-feira, fevereiro 16, 2015

Respeitável público!

Prepare-se para o espetáculo...
Não vai faltar obstáculo!
À sua direita, a mulher barbada
À sua esquerda, uma baita enrascada
O homem que engole fogo
E você, que engole sapo
É claro que tem palhaço
Você participa fácil
Ao final, domar a fera
Antes de deixar a Terra

Corda bamba

Andando na corda bamba
Andando andando andando
A menina bamboleia
A sombrinha bambeia
Sem rede de proteção

O meu monstro

O meu monstro
Tem pata de elefante,
Rabo de dinossauro,
Pescoço de cobra.

Quando ele anda,
Estremece tudo
Com seu olhar de crocodilo,
Sua carapaça indestrutível.

Os outros não acreditam:
“Deixe de besteira,
Não é um monstro,
Mas um jabuti feroz.”

Poesiando

Poesia
é encontrar alegria
onde só se vê agonia
É a roca que chia
enquanto se fia
É um gato que mia
enquanto dá cria
É encontrar com a Lia
aquela antipatia
É comer aletria
sofrendo de azia
É visitar sua tia
Cheia de manias
É terminar o poema
com outro fonema

Tito

Gostará de periquitos
ou adorará mosquitos?
Provocará faniquitos
e levará muitos pitos
Ou entenderá o que foi dito
com um coração contrito?
De tanto que o cito
eu já o fito
construindo monolitos,
contemplando aerolitos...
Será um mito

(A Luciana Soares)

Ou à la carte ou a quilo

Ou se come banana e não se planta bananeira
Ou se planta bananeira e não se come banana 

Ou se chupa manga e não se toma banho de mangueira
Ou se toma banho de mangueira e não se chupa manga

Ou se morde a maçã e... que poema maçante!

Intuição


Na hora que ele intuiu
Nasceu um tuiuiú
Intuiu, intuiu, intuiu
Mas nada aconteceu

Relembrando a Copa

Mostra tua força, Brasil
Este país é uma zuêra
Todo mundo de brincadeira
Vai ter feriado, Brasil

Mostra tua força, Brasil
Não trabalhar, nossa bandeira
Pra dormir a manhã inteira
Chegue à semi, Brasil

(Para quem não se lembra: o jingle original)
PS: De fato, só chegou à semi....

****

Özil
Mostra a tua cara
Que assim a zaga
Toda vai fugir

Özil
Eu vou ter um troço
O Maraca é nosso
E não do Messi

Durmam

Escrevi: Filho, vai ser gauche na vida
Ele tinha dislexia, passou a vida pintado

Tijolos amarelos

Depende do Oz
Se a Dorothy volta pra casa
Coração para o Homem de Lata
Para ele não enferrujar

Depende do Oz
Dar coragem pro Leão medroso
Pro Espantalho um cérebro novo
Mal sabem como acabará

***

Titãs cantam:
"Homem de Lata!
E o Leão sem Coragem
Ô ôô ô!"

Pavlov

Pavlov, Pavlov!
Pavlov, Pavlov!
Pavlov, Pavlov, Pavlov, Pavlov...

Quero de novo com você
Ver condicionamento, testar a salivação
Assim, vou poder entender
Como opera o reflexo em cada situação.

Cãozinho, vou esperar, assistir ao seu prazer
Enchendo o saco de sol a sol
Vou experimentar, explorando você
Da ciência vou entrar no rol

Autobiografia

O editor é um fingidor
– o leitor até acredita –,
ele finge que é do autor
o texto que deveras edita.

domingo, maio 19, 2013

E um rinoceronte dobrado

Neologia

Dentro da minha caixa de sapatos
Eu guardaria todos os hiatos,
ditongos e encontros consonantais
Das palavras que amo mais.

Depois a caixa eu sacudiria
Para formar novos amores,
Palavras de outros sabores,
Que levem embora a agonia.


****

Proparoxitonia

Na minha caixa de sapatos
Colocaria uma epífita,
Um estômato, uma cítara

E uma lâmpada mínima

Alice, por onde anda?

Alice, por onde anda?
Já te vi grande,
Já te vi pequena,
Já te vi correndo,
Tomando chá.
Dizem que está
No País das Maravilhas.
Mas que diferença há
Para o lugar onde vivia,
Onde o poder da imaginação
Te levava aonde queria,
Às vezes de supetão,
Ao Sítio, à Terra-Média,
A Nárnia, à Terra do Nunca...
Alice, por onde anda?
Ah, está aqui na sala
Acompanhada da gata
Lendo um livro...
Não precisa ir a nenhum lugar.

Sobremesa

Lá em cima da mesa
Passa queijo, goiabada
Só não passa Julieta
Que morreu apaixonada

Pensamentos Desencontrados - Estamos indo de volta pra casa

Na propaganda que o Metrô fez mas não chegou a ir ao ar, a música do Legião Urbana assim estaria:

"Fecharam as estações
Tudo mudou
Eu sei que dava pra ter feito antes
Mas é tudo assim, tão bagunçado...

Se lembra quando a gente
Chegou um dia a prometer
Que o metrô ia melhorar
Sem você ver
Que 'melhorar'
Não diz nada..."

sábado, maio 26, 2012

Pensamentos Desencontrados - A balada do herói

Baseado numa famosa música evangélica, o herói grego canta:

"Eu sou Teseu
E quero chegar
No labirinto
O mais longe que der
Só pra poder
Matar o Minotauro
E chamar toda a atenção para mim
Eu preciso de ti, Ariadne
Eu preciso de ti, princesa
Sou pequeno demais
Me dá o teu novelo
Faço tudo pra não morrer!

Entra no labirinto,
Entra e não se perde
Nessa grande estrutura
Que está cheia de armadilhas
É preciso ter sagacidade
Pra depois poder sair
Perseverança é o bem maior
É só não desistir!"


Em tempo: para quem não conhece a versão original... http://letras.mus.br/regis-danese/1506456/

Pensamentos Desencontrados - O poder astral

Cantem com o Rappa:

Ele é Cavaleiro
Ele é de Leão

Ele é Cavaleiro
Ele é de Leão!

Aioria ê ê! Aioria é é! Aioria ê ê! Aioria ééé...