quarta-feira, maio 27, 2020

Bandeiras

– BRAVO! BRAVÍSSIMO!

Léo dá um pulo na cadeira quando o homem entra aos berros no estande. Ele parece um barril e tem até dificuldade para passar pela porta. Que raios é aquilo?

Para seu azar, o senhor vem bem na sua direção, os olhos brilhando. Senta-se com estrondo na cadeira à frente de Léo.


– Quero comprar um apartamento, o mais caro que vocês tiverem!

Léo mexe a boca como um peixe fora d’água. Nem nos seus melhores sonhos isso aconteceria. Isso só se via em filmes, o cara excêntrico que quer esbanjar dinheiro.


– M-mas é claro, senhor. Desculpe, qual é o seu nome?

– Miguel Ângelo. Mas pode me chamar apenas de Miguel.

– Pois bem, senhor Miguel, vou lhe apresentar as características…

– Não é preciso. Confio na qualidade. Com aquele movimento perfeito de bandeira…

– Perdão, senhor? – Léo pestaneja.

– Não é possível que você não tenha reparado. Venha cá.


O homem se levanta e praticamente arrasta o corretor pelo braço.

– Veja só. – Ele aponta para as mulheres balançando bandeiras do lado de fora.

– Humm, sim, foram contratadas para chamar atenção para o empreendimento…

– Ah, vocês não sabem a mina de ouro que têm em mãos. Olhe bem o movimento ondulante das bandeiras. É a proporção áurea! A sequência de Fibonacci! O número phi!


O homem esmigalha o braço de Léo em sua euforia. O corretor não sabe o que fazer além de concordar. Está quase abrindo mão de sua comissão. Quase.

– É maravilhoso mesmo, senhor. Obrigado por me abrir os olhos.

– Não vejo a hora de morar neste condomínio… Para quando está prevista a entrega mesmo?

– Janeiro de 2021.

– Imagine poder admirar todo dia essa proporção áurea! Queria muito saber quem treinou essa ondulação…

– Ahn… senhor?

– Sim? – responde o homem, sem conseguir despregar os olhos do lado de fora.

– Essas moças não vão continuar aí depois do fim da obra. Aliás, elas devem ir embora bem antes, quando todos os apartamentos forem vendidos…

– Mas como isso é possível?? – O homem se vira, rubro. – Eu estou comprando só pela sequência de Fibonacci!

– Senhor, mil perdões, posso tentar ver se haverá alguma bandeira tremulando dentro do condomínio…

– Não ouse tripudiar da arte! Por que ninguém compreende a verdadeira beleza da vida?


O homem sai pisando duro, quase arrancando o batente do estande.

Léo fica olhando abobalhado para as bandeiras ondulantes. De fato é impressionante a sincronia das moças… Será que há algum significado oculto?


Ele sacode a cabeça, voltando à realidade. O Solar Da Vinci precisa do seu trabalho.

segunda-feira, maio 18, 2020

Salinas

O coração de Letícia está acelerado. Ela até erra o botão na primeira vez, mas depois clica certo. A página do SiSU carrega lentamente, sua internet não ajuda nem um pouco. Tudo que ela quer saber é se conseguiu a vaga em medicina na Universidade Estadual de Montes Claros. Então lá aparecem seu nome, suas notas e sua aprovação… para o curso  tecnológico de produção de cachaça.


Letícia pisca os olhos, atônita. Ela relê seus dados para se certificar de que entrou no próprio cadastro. Está tudo correto. E ela está apta a ingressar no Instituto Federal do Norte de Minas Gerais, em Salinas.

Solta um suspiro trêmulo. Ela nem se inscreveu para medicina nesse instituto, não faz sentido.


Resolve sair e fazer login de novo. Mais uma vez a lentidão e mais uma vez aquela sandice. Checa o registro dos últimos acessos e percebe que alguém invadiu seu cadastro, pois não entrou na madrugada daquele dia.

Não consegue acreditar que aquilo aconteceu. E por que logo ela? Por que hackers a teriam escolhido para essa brincadeira de mau gosto?

O jeito é reclamar ao MEC e torcer que revejam sua situação. Fica tão desanimada que decide dormir logo. O dia seguinte vai ser tenso.


****

Apesar de toda a apreensão, acaba acordando tarde. Mexendo no celular ainda na cama, descobre que não foi a única vítima dos hackers: diversas pessoas relatam mudanças de curso, às vezes até de estado. Pesquisa como recorrer ao ministério e segue todo o procedimento. Agora é esperar.


****

O MEC não quis admitir as falhas na segurança do sistema e levantou suspeitas sobre os candidatos. Os pais de Letícia resolvem entrar na Justiça, mas ela não tem esperanças com aquele governo.


Começa a se acostumar com a ideia de esperar mais um ano para entrar na universidade. Mais um ano estudando sozinha enquanto seus amigos vão para outros lugares. Afinal, não há nenhuma faculdade em Fruta de Leite. Com tão poucos habitantes e um nome tão exótico… Letícia sonhava há muito tempo conhecer cidades maiores, mas ficaria mais um ano presa ali…


Humm… Se tudo der errado, existe a possibilidade de ela ir para Salinas. Ela já mora mesmo na região turística da cachaça, praticamente respira álcool de pinga. Seria uma desculpa para se mudar, se divertir, então largaria a outra faculdade quando passasse para medicina. Plano perfeito.


****

Letícia está mais tranquila quando recebe a notícia de que seu cadastro não será corrigido. Pelo menos uma parte dos seus sonhos vai se concretizar. Quer dizer, precisa convencer os pais dessa solução, afinal, são diversos gastos envolvidos. Ela promete que vai trabalhar para se bancar também e que tentará vir a Fruta de Leite toda semana, no máximo de 15 em 15 dias.


Travam uma verdadeira guerra, mas no fim os pais cedem. Talvez tenham ficado com medo da ameaça dela de fugir de casa. Pelo menos vai estar ali pertinho, será uma transição enquanto não vai para Montes Claros, mais longe.

“Salinas, aí vou eu!”, pensa ela.


****

Letícia acorda e fica olhando para o teto. Precisa ir trabalhar, mas cadê a disposição? Isso que dá ficar até tarde com os amigos.

Levanta-se preguiçosamente e vai lavar o rosto. Fita seu reflexo no espelho. Quem diria que sua vida mudaria tanto em 5 anos? A mudança de cidade abriu sua mente, suas perspectivas.


Por falta de opção, tinha começado a trabalhar numa produtora de cachaça porque, bem, Salinas praticamente vive disso. Sua função era burocrática, quase uma estagiária, se isso existisse naquela empresa. Ao longo de um ano de estudo e preparo, viu-se muitas vezes alheia à medicina que precisava aprender e cada vez mais interessada pela área que nunca a atraiu em Fruta de Leite. Uma coisa é ouvir falar, outra é estar lá dentro.


A família nunca trabalhou no setor meio que por uma questão puritana, de não se envolver com bebidas alcoólicas, “vícios”, então Letícia não o conhecia de verdade. Por isso foi tão difícil dar a notícia aos pais. A mudança que eles relutavam em aceitar agora seria permanente. Ao menos está mais perto de casa do que se trabalhasse em Montes Claros. Aliás, lá ainda estaria estudando.


Toma o café da manhã e se arruma para o trabalho. Mal acredita em sua sorte. Abre um sorriso e sai de casa.


****

A noite é a hora de arejar a cabeça, descansar do dia cansativo. Letícia gosta de se entreter no computador, mas hoje será um momento diferente. Ela decidiu participar de um sistema revolucionário, ainda em fase de testes e em grande parte mantido em segredo. Por acaso ficou sabendo durante uma conversa de bar numa happy hour.


Pagou pelo acesso ontem e seus dados foram verificados. Entra com um IP anônimo e usa um link criptografado.

O sistema parece meio arcaico ainda, mas o importante é funcionar. Nunca imaginaria que algo avançado como aquilo seria possível tão cedo: viajar para o passado, mas não pessoalmente, e sim por meio do computador.

Através da tecnologia pode acessar qualquer site, programa, rede social de uma época escolhida, do jeito que eram em determinado instante. Ela pagou para poder fazer um acesso por até seis horas.


Está tão radiante com sua nova vida que só pensa em um objetivo: se comunicar com o hacker que trocou sua faculdade e agradecer a ele. Antes de pagar por aquele serviço, Letícia estudou programação, leu todas as notícias possíveis sobre o caso dos hackers do SiSu para entender as brechas e se aproveitar para invadir também o site.


O sistema onde Letícia está permite comunicação com as pessoas do passado, então ela vai poder falar com o outro hacker. Por ser um fato memorável, sabe exatamente a data e o horário em que se deu a mudança de cadastro, então ela se conecta. A tela fica toda preta. Letícia pragueja; não acredita que pagou aquilo tudo para agora travar.


Então a tela volta a acender e lá está sua inscrição de medicina em Montes Claros. 04h20. 04h21. 04h22. Começa um movimento estranho no site. Letícia faz abrir uma janela e escreve: “Olá, hacker!”


O movimento cessa. Letícia o assustou. Ela não quer que ele vá embora.

“Calma, eu só vim te agradecer.”

Uma frase surge abaixo da sua mensagem: “Quem é vc? Agradecer pelo quê?”

É claro que ele não tinha como saber. “Vc veio trocar minha faculdade. Sem querer, vc fez muito bem a mim.”


O movimento cessa mais uma vez. Droga.

“Alguém aí?”

“Não foi sem querer.”

“Como assim?”

“Espere um instante.”

O outro cursor se move e, então, aparece uma outra janela, parecendo de vídeo.

– Oi, Letícia.


Letícia se espanta, pois a impressão é de que aquilo não é gravado. Ela escreve: “Como vc faz isso?”

– Tecnologia avançada. – A mulher ri, mas a garota não entende do quê. – Bom saber que você está bem.

“E por que isso importaria?”

– Ah, porque… bem, estou fazendo tudo isto para você ficar bem, sabe?

“Não sei, não.”


– Eu estou muito infeliz como médica. Percebi que cometi um erro, mas não sabia bem o que iria fazer. Até que, numa das visitas aos meus pais, acabei conhecendo a indústria da cachaça e me apaixonei. Você sabe como eles nunca deixaram… a gente conhecer direito.


“Peraí, vc está dizendo que sou eu?”

– Sim, Lelê, eu estava angustiada, pesquisei e descobri que o curso de produção de cachaça nem existe mais. E seria muito difícil dar uma guinada dessas a esta altura, vinte anos depois do vestibular… Mas fiquei sabendo do sistema para hackear o passado. É a minha oportunidade.


Silêncio. Nada escrito.

“Então eu mesma que vou trocar o curso no futuro?”

– Sim. Você quer isso mesmo?

“Quero. Por favor.”

– Que tal você mesma trocar agora?


A garota olha para o relógio do computador: 04h34. Quase na hora em que o hacker fez a substituição.

“OK.”

– Na hora em que você confirmar a troca, eu vou deixar de existir.


Letícia assente, apesar de a mulher não poder vê-la.

Ela troca o curso e olha para si mesma num possível futuro.

– Obrigada.


Letícia aperta o botão e o vídeo some para todo o sempre.


sábado, dezembro 21, 2019

A escolhida

Adalgisa sempre tinha sofrido nas mãos da família – se é que podia chamar aquilo de família. Era obrigada a morar na casa de uns tios distantes, que nunca tinha visto antes de perder os pais. Às vezes a vontade que dava era de sair socando todo mundo ali, mas não tinha muita opção… A alternativa era ir para um orfanato.

Seu suplício começara havia 11 anos, mas pareciam décadas. Ela aceitaria qualquer coisa para se livrar daquele lugar. Inclusive uma águia de duas cabeças falante entrando no seu quarto.

A águia estava lhe dizendo agora que Adalgisa era a escolhida. Quer dizer, uma das cabeças dizia isso, porque a outra desmentia tudo em seguida, afirmando que sua companheira tinha comido um esquilo alucinógeno.

Tentou fazer algumas perguntas, como "Escolhida por quem?", "Escolhida para quê?", "Fui escolhida democraticamente ou é ditadura?", mas cada cabeça respondia uma coisa e ela começou a ficar maluca.

Por fim, tinha que fazer uma escolha ela mesma, entre ir para São João de Pirapirapirô ou Barra de Saia Longa. Qual cabeça parecia mais convincente?

Ela deu um pulo quando a campainha tocou. Os tios nunca recebiam visita... Saiu correndo para abrir primeiro, derrubou o primo da escada, deu uma rasteira no tio e jogou a tia pela janela. Já não se importava mais com nada. 

Um homem enorme estava à porta, sua moto fumegando atrás.
– Adalgisa? Vim buscá-la.
– Você acha que eu vou sozinha com um estranho barbudo e sujo, nessa moto de quinta categoria?
– A Escola de Magia de Aroeira espera a senhorita há anos…
– Aroeira? Onde raios fica isso?
– Não podemos revelar. Só poderei comentar mais quando chegarmos ao destino…
Adalgisa gargalhou.
– Golpezinho malfeito, hein? Leva sua águia de duas cabeças e mete o pé!

Ela bateu a porta e resolveu que já estava na hora de ir morar sozinha.

domingo, novembro 10, 2019

A tristeza das luzes

O pinheirinho parecia estremecer ao vento. Ainda jovem, ele admirava os pais, que se elevavam até as alturas, carregados de pinhas.
À sua volta, havia pinheiros dos mais diversos tipos e tamanhos, cuidados por humanos. Recebiam toda água, iluminação e poda que eram necessárias, paparicados o tempo inteiro.
De vez em quando, um conhecido seu era levado para outro lugar e nunca mais reaparecia. Justo no tempo frio faziam isso? Será que iam ficar no meio da neve?
Mas alguns diziam que lá fora também havia um ambiente quentinho, repleto de luzes e música.
O pinheirinho ficava curioso, mas preferia permanecer ao lado da família. Se pudesse escolher.
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Quando as pinhas apareceram pela primeira vez, ele teve vontade de se exibir para todo mundo. Os pais estavam orgulhosos e os humanos fizeram a festa, recolhendo-as não sabia para quê.
O pinheiro continuou crescendo e já quase não conhecia os que estavam ao seu redor. A maior parte tinha ido para o mundo de fantasia.
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Até o dia em que vieram buscá-lo.
Ele estava dividido entre o medo, a tristeza e a ansiedade. Mal conseguiu se despedir.
Colocaram-no num lugar grande e escuro, num solo estranho, e um zumbido começou. Pareceu durar uma eternidade. Não conseguia esticar suas raízes, que pareciam meio dormentes.
Quando o zumbido parou, ele estava ainda meio fraco, zonzo, não acostumado à nova terra.
Surgiu uma claridade e o pinheiro se viu no tal mundo que tinham descrito. Era exatamente daquele jeito: luzes, música, cores por todo lado. Foi colocado em meio a um monte de humanos, e só então reparou que estava fixado num grande recipiente.
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Filhotes de humanos começaram a correr em volta dele com caixas que tilintavam. Eles as abriram e começaram a pendurar em seus galhos objetos estranhos, circulares, brilhantes, alguns com formato de humanos, outros de seres que não conhecia.
Seus galhos começaram a pesar um pouco, uma humana gritou e os pequenos pararam. Ela pegou um objeto cheio de pontas e prendeu no topo do pinheiro.
Ia precisar aguentar aquelas coisas presas por quanto tempo?
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Um humano colocou água na terra e o pinheiro se sentiu agradecido. 
Resolveram envolver nele uns ramos com luzes que piscavam e aqueciam. Então, do nada, o ambiente escureceu e só ficaram as luzes dele. O pinheiro suspirou e pegou no sono.
Quando acordou, os ramos estavam apagados, mas os objetos continuavam pendurados. Experimentou se sacudir um pouco e alguns caíram com um tilintar. Logo apareceu um filhote e colocou de volta. Não ia ser fácil.
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Os dias se passaram e chegou o dia mais colorido, iluminado e barulhento. O lugar se encheu de humanos. Todos mexiam nele, alisando-o, como se fosse um ser estranho.
Abaixo dele, objetos coloridos e quadrados se espalhavam, olhados a todo tempo pelos filhotes. De lá saíram coisas impressionantes, que o pinheiro nunca tinha visto, atiçando sua curiosidade.
Mas ele estava cansado, meio fraco. Havia tempo não pegava um sol de verdade. Os raios mal o alcançavam.
Logo a confusão passou e ele se viu sozinho com as luzinhas.
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Nos dias seguintes, o ambiente se tornou menos colorido, menos iluminado, mais silencioso. Então os filhotes tiraram os ramos e os objetos pendurados, para seu alívio. Ele até se sentiu meio nu.
Ninguém mais parecia lhe dar atenção.
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Certo dia, viu que os humanos apontavam para ele, as caras sérias. Começaram a brigar, sumiram.
O pinheiro estava esgotado, angustiado. Recentemente, não o estavam regando direito.
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Um dos humanos reapareceu e carregou seu vaso para o quintal. O pinheiro nem acreditou que pegaria sol de verdade. Ficou largado lá sozinho.
Então ouviu um zumbido, que foi aumentando de volume até surgir uma máquina que lhe despertou lembranças.
Foi colocado dentro e tudo escureceu.
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O zumbido persistiu e embalou o sono do pinheiro.
Foi acordado com um baque alto, uma porta sendo aberta.
Ele não acreditava. Lá estavam seus pais.
Com violência, foi arrancado do vaso e plantado num buraco, que logo foi enchido de terra. Suspirou ao conseguir esticar novamente as raízes. 
Estremeceu ao vento e verteu lágrimas de orvalho.

sábado, outubro 26, 2019

Fora do padrão

Bendita hora em que Flávia foi aceitar aquela revisão.
Ela nem tinha perguntado do que se tratava o livro, pois estava precisando de dinheiro, e agora se deparava com aquela não ficção tenebrosa.
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"Entediante" não conseguia descrever o tema do trabalho e a abordagem terrível. Isso sem falar no texto mal escrito. Mas o que a estava tirando do sério era a padronização. Ou melhor, a falta dela.
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O autor parecia que tinha escrito normalmente, depois pensou: quais são todas as maneiras de formatar um texto? Como posso diversificar? E fez uma análise combinatória com bastante criatividade.
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Ela tinha pesadelos com a revisão. Acordava gritando, lembrando-se de uma padronização que tinha deixado passar. Corria até o escritório para anotar antes que esquecesse.
Letras maiúsculas, versaletes, itálicos, negritos, parêntesis dançavam em sua mente, assombrando-a.
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Flávia teve vontade de queimar a prova. Seria bonito vê-la pegando fogo. Ou quem sabe tacar tudo pela janela e contemplá-la sendo levada pelo vento? Colocar num triturador de papel. Jogar no mar. Atirar um balde de tinta em cima.
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Mas isso não iria eliminar o arquivo maldito. Planejou ir à editora com a justificativa de pedir mais prazo (o que precisava mesmo) e, lá, apagar o original. Mas o livro continuaria a existir na casa do autor.
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Fingindo que precisava tirar dúvidas com o autor, conseguiu o e-mail dele. Depois, o telefone. Marcou um encontro na casa dele, alegando que as questões eram muito complicadas e seria mais fácil tratar presencialmente.
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No dia seguinte, Flávia se preparou. Chegou à casa do autor e conseguiu se conter e ser cordial até ele mostrar o arquivo.
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– Essa é a única cópia que vc tem dele?
– Ah, não, eu sempre salvo no HD externo, na nuvem…
– Preciso que vc apague todas agora.
Ele riu.
– O trabalho te ofendeu? Você acha mesmo que vou jogar fora um trabalho de anos… O que você acha que está fazendo?!
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Flávia apontava uma arma para ele.
– Ninguém merece ler um trabalho ruim como o seu. Você escreveu só para infernizar os revisores.
– Calma, você está precisando de ajuda…
– APAGA AGORA! TODOS OS ARQUIVOS!
– Tu-tudo bem.
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Com dificuldade para segurar o mouse firme, o autor foi selecionando uma a uma as cópias.
– Ligue agora para a editora e diga que desistiu de publicar, para apagarem os arquivos.
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O homem ficou paralisado.
– AGORA!
Ele obedeceu, apático e incrédulo.
– Você nunca mais vai procurar uma editora para publicar essa merda. Me entendeu?
Silêncio.
– ME ENTENDEU?
– Sim...
– Não pense que vou esquecer o suplício que você me fez passar. Vou sempre procurar seu nome na internet para ver se cumpriu a promessa. E posso fazer alguma visita aqui.
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Flávia guardou a arma e deu um tchauzinho.
– Trate de procurar outra profissão.
Com um largo sorriso, ela lhe deu as costas e foi embora.

domingo, setembro 15, 2019

Self-service

Arroz, feijão, purê, frango, quibe, suflê de queijo, bolinho de peixe... Abel não estava nem aí se algumas coisas não combinavam ou se era exagero: se estava com vontade de comer, ia botando. Pegou uma Coca para acompanhar e pesou o prato.

Agora precisava achar o pessoal do trabalho. Rodou tanto se decidindo onde comer que não sabia mais onde eles estavam sentados. Primeiro ia subir os três degraus até a praça de alimentação... Ah, não, tinha mais um degrau! O corpo foi muito lento para reagir e, quando viu, Abel estava estatelado no chão do shopping, comida espalhada para todo lado, o prato milagrosamente intacto embaixo da bandeja, a lata tinha rolado para um canto.

Dolorido e morrendo de vergonha, ele se levantou olhando em volta. As pessoas o encaravam, algumas se continham para não rir, mas também havia almas caridosas. Meio mancando, recolheu o que pôde com a ajuda de outros. Segurando o prato, a lata e a bandeja, voltou para o restaurante a quilo. Com pena, o gerente deixou que ele colocasse comida de novo sem pagar. Abel pegou o que viu pela frente primeiro, sem se preocupar em repetir os alimentos de antes.

Algumas pessoas ainda o olhavam como se ele fosse um ET.
"Queria muito que isso não tivesse acontecido...", pensou Abel.
Meio zonzo, prestou toda a atenção nos degraus e atravessou a praça de alimentação. Pelo menos já não sentia dor.
Enfim avistou seus colegas. Não ia contar nada a eles, ainda estava com vergonha. Sentou à mesa e, quando foi comer... Ué, ele não tinha pegado suflê desta vez. Nem quibe... Mas o prato estava exatamente igual ao de antes da queda. Aliás, a bandeja também, laranja, e não azul.

Voltou ao restaurante como se para agradecer de novo pela bondade, mas o gerente não entendeu do que ele estava falando.
O seu desejo tinha provocado aquilo? Imagina se pudesse retroceder e desfazer cada besteira, arrepender-se e voltar atrás?
Especialmente aquela vez em que recusara a oferta de publicarem um livro seu por pura insegurança. Agora queria muito ter aceitado...

Então veio novamente a vertigem. E o agente apertava sua mão.
– Parabéns, vamos fazer do seu livro um sucesso.
Abel deu um sorrisinho, ainda atordoado.
Quando já estava sozinho, começou a cogitar se deveria tentar outras hipóteses, realidades também... Mas não, não podia ficar pulando de uma coisa para outra como um doido. Precisava focar numa e ver se dava certo.

***
No dia do lançamento do livro, Abel estava muito nervoso. Não tinha a mínima ideia do que as pessoas iam achar da obra.
Chegou cedo à livraria e ficou esperando. Desde o início de sua nova vida, tinha se forçado a não pensar em desejos, para não "viajar" sem querer, até porque algumas vontades eram meras bobagens.

Os leitores começaram a chegar e, quando viu, Abel estava com um bom público. Ele estremeceu ao avistar Jean Dias no canto, conversando. Era um grande crítico literário e tinha recebido um exemplar antecipadamente, pois o agente esperava que ele fizesse uma resenha e alavancasse as vendas.

Jean não veio pedir seu autógrafo, então, no fim da sessão, Abel tomou coragem para perguntar a ele sua opinião.
– Quer que eu seja sincero? Confesso que não gostei. O livro poderia ser bem menor, algumas partes se arrastam muito e o fim é muito acelerado, não fecha bem... Desculpe. Se preferir, não faço a resenha.
– Caramba, que pena... Queria muito que você tivesse gostado.
– Eu gostei do seu livro! Inclusive, pensei em escrever uma resenha. O que acha?
Abel ficou estarrecido. Seu desejo não podia alterar outras pessoas.
– Eu... eu acho ótimo.
– Parabéns pela obra!
Jean apertou sua mão e foi embora.
Abel ainda precisava digerir aquela novidade. Alegou uma dor de cabeça e foi para casa dormir.

***
Alguns dias depois, ao acordar, Abel fitou seu livro no criado-mudo e resolveu fazer algo que já deveria ter feito: relembrar a própria história. Tinha escrito havia tanto tempo que não se recordava dos detalhes.

No meio da leitura, até concordou com um dos Jean Dias: alguns trechos eram longos demais, inclusive banais, como um almoço no shopping, um protagonista que conseguia publicar sua obra e recebia elogios de um crítico famoso... Exatamente como acontecera com Abel... A diferença é que, no livro, o crítico o convidava para um almoço. Nossa, imagina visitar a casa do Jean Dias! Queria muito conhecê-la.

Surgiu a vertigem e ele apareceu na sala de Jean.
– ... e acho que você tem futuro, sabe?
O crítico o encarou, à espera de uma resposta. Abel ainda estava com cara de paspalho e só conseguiu fazer sim com a cabeça.
Passou o almoço todo desnorteado. Aproveitou a oportunidade ao máximo e voltou para casa, sem ter com quem falar. Não podia deixar de perceber que suas amizades não eram as mesmas, sua trajetória havia moldado outras afinidades. A família nunca fora próxima mesmo.

Agora lhe restava se dedicar ao novo livro que a editora já esperava. Ou talvez terminar de reler sua história em busca de ideias...
Abel ainda refletia sobre como tinha obtido aquele poder. Em que momento tudo começara? 
Lendo sua história, ele descobriu, mas não sabia se tinha coragem de fazer aquilo.

***
De noite, Abel ainda se perguntava se valia a pena seguir o livro, mas era o único jeito de manter sua nova vida. 
Ele teria que voltar no tempo, justamente para o momento do almoço.

Abel formulou o desejo, sentiu a vertigem e, de repente, lá estava no shopping. Olhou ao redor, nervoso. Não estava encontrando. Então, avistou a si mesmo servindo-se no restaurante. Com a bandeja laranja. Sabia o que precisava fazer agora.

Correu para perto do outro Abel, mas hesitou. O pensamento queria fluir por sua mente. Queria muito que o seu outro eu tivesse o poder de alterar o próprio passado. Mas não qualquer acontecimento: só o que estivesse no seu livro.

Estava feito. O outro Abel se encaminhou para os degraus e, mais uma vez, caiu de forma vergonhosa. O Abel do futuro quase sentiu uma pontada de dor.

Olhou ao longe e viu seus antigos colegas de trabalho. Deu até saudade. Tinham sorte de não saber o que ainda viria pela frente em suas vidas.

Voltou-se para seu outro eu a tempo do momento crucial: a realidade se borrou e, quando tudo ficou nítido, a bandeja estava de novo laranja.
Não havia mais o que temer. 

Então o Abel do futuro foi tomado por um impulso. Saiu correndo.
Já nos degraus, derrubou seu antigo eu e disparou para longe.
Ele não iria perceber a mudança da realidade.

Em meio à corrida, o Abel consciente foi se desmaterializando até sumir.

domingo, agosto 18, 2019

Magia

– Alô?
– Bom dia. Poderia falar com a senhora Souza?
– É ela mesma.
– É uma honra estar falando com a senhora. A senhora fará parte da primeira turma de bruxos avançados.
– Bruxos?
– Sim, da Escola de Magia de Aroeira. Selecionamos a senhora…
– Desculpe, não tenho interesse em mágica.
– Na verdade é uma escola de magia. As pessoas que não tinham tanta aptidão na infância ou não couberam nas vagas que tínhamos disponíveis agora têm uma nova chance de aprender…
– E por acaso você sabe como eu era na infância?
– Ah, sim, acompanhamos os bruxos desde pequenos. A senhora não é tão habilidosa, mas acreditamos que, se for bem trabalhada…
– Vocês me ligaram para me insultar?
– Desculpe, senhora, não foi minha intenção! Se a senhora não fosse talentosa, eu nem ligaria. Nunca reparou em nada que tenha feito fora do normal, que não conseguiu explicar?
– Sim, ouvir você por tanto tempo. Adeus…
– Como foi que a senhora levantou aquela cadeira quando tinha 10 anos?
– Como você sabe disso? Eu não levantei nada, foi só uma ventania que derrubou.
– Como foi que a senhora transformou seu coleguinha num chihuahua?
– Meu colega fugiu da escola, sumiu. Eu não tenho nada a ver com isso.
– Senhora Souza, nós temos gravações, não há como negar.
– Sinto muito, também não tenho condições de pagar.
– Mas não precisa…
Clique.

– Alô?
– Bom dia. Senhorita Lima?
– Sim, é ela.
– Estou ligando para informar que a senhorita fará parte da primeira turma de bruxos avançados.
– Meu Deus, não acredito, esperei por isso a vida inteira! Quando vai vir minha coruja?
– Na verdade, senhorita, não enviamos mais corujas. Atualmente é tudo tecnológico...
– Não mandam nem cartas escritas à mão com sinete, brasão?
– Não, senhorita, a Escola de Magia de Aroeira está sincronizada com os novos tempos.
– Que decepção… Eu que não vou querer participar dessa escola hipster.
Clique.

– Alô?
– Senhor Almeida, quer ser aluno da Escola de Magia de Aroeira? Primeira turma de bruxos velhos.
– O quê?
– Quer que eu desenhe? É uma escola onde pessoas inaptas têm uma segunda chance de destruir tudo com magia. Já sentindo a idade, como o senhor.
– Que negócio é esse?

– Mandarei uma coruja para sujar sua casa e milhares de cartas iguais para encher de papel todos os cômodos. Espero que fique feliz. Tenha um bom dia.

sábado, julho 27, 2019

Noir

Ela parecia estar fora de vista. Eu me esgueirava pelos becos em meio à penumbra. O cheiro de gordura, fumaça e suor já me embrulhava o estômago.
Mas eu não podia perder o foco: ela estava atrás de mim, implacável.

Avistei a porta dos fundos de um bar, que dava para o lugar que eles chamavam de cozinha, de onde saía aquela comida nojenta. Me abriguei lá, pensando quanto tempo ainda tinha antes de ela me alcançar.

Podia sentir sua aproximação… Lá estava. Pela brecha, a vi passar, a arma na mão.
Talvez não desconfiasse se eu me metesse na latrina mais adiante. Ou se me jogasse dentro da caçamba de lixo.

Aguardei, suando frio. A qualquer momento ela iria voltar.

Num rompante, decidi que era hora. Atravessei a porta e saí correndo para a latrina.
Mas fiz a besteira de olhar para trás.

Ela pareceu se materializar das sombras e disparou a arma.
Fui atingido de forma certeira e desabei na sarjeta.

– Por favor, não me mate!

– Pedro, você quer parar com essa palhaçada? Já basta ter quebrado o vidro da janela, ainda fica fugindo de mim pela casa como se estivesse num videogame. Vai levar muito mais!


Minha mãe pegou o chinelo de volta e eu vi que era meu fim.

sábado, julho 13, 2019

Lagarteando


– Manhê, pega a toalha pra mim?
Lucas queria dar uma de gente grande e tomar banho sozinho, mas tinha esquecido justo a toalha.
A postos dentro do boxe, abriu a torneira e deixou que a água escorresse por seu corpo. Fechou os olhos e aproveitou a ducha caindo no rosto até que ouviu uma pancada no vidro.
Tá aí, cabeça de vento. Quer ajuda?
Tá tudo certo. – Ele levantou o polegar.
A mãe assentiu, mas sem parecer muito convencida, e saiu do banheiro.

Não era tão difícil tomar banho sozinho, ora. Começou a se ensaboar. Já ia tirando a espuma quando viu um movimento pelo canto do olho.
Olhou para o lado e congelou.
Aaaaahhhhh!!!!
Lucas saltou para fora do boxe com a água ainda ligada, escorregou e acabou levando um belo tombo.

Que foi, criatura? Apareceu um alien aí?
Tem um filhote de crocodilo no boxe!
A mãe revirou os olhos e deu uma espiada.
Você nunca tinha visto uma lagartixa?
Não desse tamanho. Nem tão perto.
Deve ser a mamãe.
Ainda tem os filhotes por aí?
Calma, Lucas, elas não fazem mal. Até comem insetos, ajudam a gente. Essa aí parece simpática.

Lucas bufou. Arriscou uma olhadinha e viu os olhinhos pretos o encarando. Dava a impressão de estar com medo dele. Estavam quites.
Pegou a toalha e preferiu se enxugar de uma vez daquele jeito mesmo. Adeus, lagartixa.
*
Mãe, pode me ajudar no banho?
Lucas nunca ia admitir que estava com medo, nem com a encarada da mãe.
A lagartixa estava em outro canto, de costas. Lucas estava na expectativa dela se virar com seus olhinhos sempre atentos... mas não com uma barata na boca.
Ela é uma fera mesmo!
É bacana, mas nojento. Vamos sair logo.

*
Lucas agora só queria saber de observar o monstrinho. Ficava torcendo para ele aparecer com uma nova presa. O mais engraçado foi quando Biriba descobriu a lagartixa. Sua gata tentou dar um bote, mas o rabo do bichinho se soltou! Ficou se debatendo e deu tempo da Croc se safar.

*
Ela ficou sumida por um tempo, depois surgiu com um rabo novo. Uma fera com superpoderes.
Lucas já se sentia bem protegido no banho, o que podia acontecer com ele?

Às vezes levava susto quando Croc passava em cima do seu pé, às vezes quase pisava nela quando aparecia do nada, no seu reino que era o boxe.

*
Num dia de aguaceiro no banho, Lucas viu a lagartixa crocodilando, parecendo um jacaré a nadar. Ele tentou se controlar, mas não conseguiu, e pegou na Croc como se fosse um brinquedinho.

Ela não fez nenhum movimento de susto. Ele a suspendeu para analisar melhor, mas o animal continuou imóvel, os olhinhos sem brilho.

Não podia ser.

– Manhê!

A mãe não sabia o que tinha acontecido, mas falou que era coisa da natureza, que Croc tinha descansado sem dor, e ainda com o rabo novo.

Lucas fez carinho na cabeça dela e levou o corpinho até um canteiro de flores. Com uma pequena pá, cavou um buraco e a enterrou.
Uma lágrima caiu para marcar o local e Lucas sorriu ao lembrar tudo que tinham vivido.

Adeus, Croc.