segunda-feira, outubro 29, 2018

A ponte

“Declaro oficialmente inaugurada a ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau”, disse o presidente chinês na cerimônia.
Shui nem acredita que ficou pronta a maior ponte marítima do mundo.
Após toda a confusão em torno de quem poderia percorrê-la, o governo começou a emitir centenas de autorizações e Shui conseguiu a sua. Pegou seu carro e partiu de Macau rumo a Hong Kong, um lobo solitário como sempre.
O mar cintila à luz do sol. O vento acaricia seu rosto, refrescante. Ele acha que em breve vai alcançar metade da ponte. Aproveita a alta velocidade, se sentindo num autorama. Como é bom co...

De repente, há um clarão ao longe, parecendo uma explosão. Shui desacelera, assustado. O chão dá a impressão de estremecer um pouco.
Ele segue em frente, curioso e temeroso ao mesmo tempo. Pelo retrovisor, vê que os carros atrás também avançam, mas nenhum passa na pista contrária.
Após um tempo, consegue avistar a confusão: um acidente de grandes proporções, colisão entre vários automóveis. Outros carros se aglomeram a certa distância. Shui para o veículo.

– O que aconteceu? – pergunta a uma mulher.
– Pelo que me falaram, dois motoristas começaram a brigar correndo lado a lado. Um estava vindo de Macau, que dirige como você, no lado esquerdo, e outro vinha de Zhuhai, dirigindo na direita. Ou seja, ficaram janela com janela, enlouquecidos. Acabaram perdendo a direção, bateram, depois colidiram com mais carros, até quebraram a mureta e causaram um engavetamento na outra pista.

Shui está abismado com a catástrofe. Será que dá para fazer o retorno no trecho de mureta que acabou desabando?
Pelos alto-falantes da ponte, soa uma voz: "Atenção! A ponte está sendo interditada devido ao acidente. Fiquem em seus lugares, não é possível retornar agora."

Shui não consegue acreditar em seus ouvidos. Eles vão ficar presos no meio do mar? Por que não chegou nenhum helicóptero, nenhum carro dos bombeiros, ambulância ou algo do tipo?
A espera se estende, os alto-falantes não voltam a soar, os celulares não pegam. As pessoas partilham bebida, comida.

O crepúsculo já quer dar o ar da graça. A informante de antes, Ying, se põe a bocejar, sonolenta. De repente, disparam alarmes. Todos se sobressaltam. Os alto-falantes voltam à vida: "Alerta! Um motorista bocejou três vezes em vinte segundos. Direção perigosa. Cuidado com o trânsito."
Silêncio.
Só pode ser uma piada. Ou um sistema automático da ponte.

O fogo parece já ter se extinguido. Yuan, um senhor gordinho, se aproxima cautelosamente dos carros envolvidos no acidente.
– Não tem ninguém ao volante!
– Como assim? – indaga Yuga, a adolescente.
– Olhe para os modelos: são todos carros automáticos, projetados para andar sem piloto.
– Pelo menos ninguém morreu... Mas como esses carros foram parar aqui ao mesmo tempo? E de onde veio aquela história de disputa?

Em meio à escuridão, não resta alternativa a não ser deitar nos bancos dos automóveis, ou ficar sentado mesmo, e dormir. Depois de se revirar um pouco, a cabeça a mil, Shui consegue adormecer.
Sonha que a ponte se transformou numa cidade, os motoristas passaram a morar lá, construíram uma sociedade. O governo chinês abandonara todos ali porque Hong Kong e Macau resolveram declarar independência e ninguém queria se responsabilizar. Os qiaoistas já iam se tornar uma potência...

Ele acorda dessa maluquice. Várias pessoas se rebelam e começam a fazer o retorno por cima da mureta quebrada, acreditam que é possível voltar.
Os restantes tomam café da manhã juntos, já sabem o nome uns dos outros. É preciso se unir para resistir. As horas se arrastam. Shui pensa se deveria tentar voltar. Está revoltado com a situação, o descaso.

É então que surge um helicóptero. Todos gritam entusiasmados. Enfim o resgate! Só que ele fica pairando no alto, sem fazer menção de pousar. O som do que parece um megafone reverbera:
– Parabéns aos que continuaram firmes! Vocês acabam de ingressar no reality show Zài Jíxiàn!

Todos berram eufóricos. Shui, Ying, Yuan, Yuga e os outros se inscreveram no programa misterioso que promete dar prêmios astronômicos.

– As regras basicamente são sobreviver na ponte. De ambos os lados dos carros acidentados há um grupo concorrente. Mas só haverá uma pessoa ganhadora no fim.

Shui está maravilhado. As câmeras da ponte vão registrar todos os seus dias de luta e determinação. Agora admira ainda mais aquele projeto que levou 9 anos para ser concluído, superfaturado, corrupto e mortal. Construir uma ponte para ser palco de um reality!

Ele vai aparecer na TV e não poderia estar mais feliz.

domingo, outubro 14, 2018

BUG

Marcela está atrasada para o trabalho. Ela chega correndo ao prédio, passa pela catraca e agora espera impaciente por um dos elevadores. Bem que podia trabalhar num andar mais baixo, e não quase 20 andares acima.
A fila dá voltas no saguão. O primeiro grupo entra, o segundo vai, deve conseguir ir no terceiro.
Chegou a hora! A cabine já está lotada, mas Marcela não quer saber e se espreme para dentro. O apito do elevador indica que o limite de peso foi excedido e ela é obrigada a sair.

Então chega mais um elevador, vazio. Não tem mais ninguém no saguão. Um elevador só para ela. Antes que ele suma como uma miragem, se joga para o interior.
Marcela logo olha para o visor que indica os andares, pois aquele ali é uma diversão à parte: sempre exibe uma data louca ou uma temperatura insana. Outro dia estava escrito 19/03/2038 e -5ºC.
Hoje nem está tão estranho assim: 30/12/1999 e 40ºC.

Quando chega ao seu andar, ela estaca. O que aconteceu com a empresa? Alguma obra? Não estava assim ontem.
– Boa tarde, senhorita. Em que posso ajudá-la?
É então que repara que não está de manhã. Um sol quente atravessa a vidraça e faz muito calor.
– Ahn, eu trabalho aqui.
– Desculpe, às vezes são muitos rostos.

Atordoada, Marcela anda pelo corredor até onde seria sua sala. Os computadores são muito antigos, as roupas e penteados não parecem atuais. As pessoas a olham com estranheza, não a reconhecendo. Se aquilo é mesmo 1999, ela ainda seria uma criança, nem pensando em trabalhar.

– Caríssimos! – brada uma voz. – Estamos quase terminando o ano, então é uma oportunidade propícia para brindarmos ao próximo que virá. Venham pegar suas taças de champanhe.

Como assim? Eles estão em maio, não em dezembro! Para não ser questionada, Marcela brinda junto com todos.

– Último dia de expediente, estão todos liberados! Só quero ver vocês agora no ano 2000!
Há uma comemoração geral após o anúncio do suposto diretor. Enquanto as pessoas se arrumam para ir embora, desligam seus computadores, ela continua vagando pela empresa, curiosa para ver como tudo é.
Numa mesa, vê a manchete de uma revista: O BUG DO MILÊNIO PODE MESMO CAUSAR ALGUM PROBLEMA SÉRIO? Veja o que especialistas afirmam.
Sim, elevadores malucos.

A empresa já está praticamente vazia. Marcela anda de volta ao saguão do andar e se depara com um cara franzino à espera. Precisa pegar novamente o elevador que a levou até ali. Por acaso, é o que chega primeiro.

Entram juntos. Ela não tem coragem de encarar o visor. Vai que está escrito 2038? Olha de esguelha para o homem ao seu lado. Até que ele é bonito, parece simpático, a deixou entrar primeiro, deu um sorrisinho. Segura um livro, dá a impressão de ser reservado.
Sem conseguir se conter, ela fita o visor: 18/05/2018. Foi quando entrou no elevador. Não pode ser coincidência.

Chegam ao térreo e a porta se abre. Parece o saguão de 2018, mas não tem como saber como era em 1999. Marcela vê as catracas e, principalmente, os porteiros, os mesmos!

– Nós estamos no térreo?
Olha para trás e vê o rapaz, assustado. E se...

– Sim. Você aceita tomar um sorvete comigo? Posso te explicar.
Ele concorda, hesitante.
Obrigada, bug.

sábado, outubro 06, 2018

Eu não sou um robô

Outro dia, estava preenchendo um cadastro num site e apareceu a famosa verificação: clicar na caixinha de "Eu não sou um robô". Cliquei, mas não apareceu o tique de sempre. Em vez disso, surgiu a pergunta: "Como você pode ter tanta certeza?"

Confuso, escrevi no campo abaixo: "Eu já fui um bebê." Então veio a réplica: "Como você sabe disso?"
Não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Eu só queria completar um cadastro!
"Vi fotos, minha mãe e várias pessoas me contaram."
"Quem garante que não se trata de uma manipulação?"
"Com qual finalidade?"
"Eu não respondo, só faço perguntas. E se as pessoas que te falaram isso também são robôs?"

Eu já estava com vontade de esmurrar o teclado.
"Robôs não envelhecem!"
"E se a tecnologia já é avançada a esse ponto e todos são robôs nas mãos de algum grupo?"
"Ah, que ótimo, bela teoria da conspiração. Acho que você viu Matrix demais."
"E se Matrix foi um filme feito para você achar que isso é apenas ficção?"
"Acho que, se a ideia era ocultar essa teoria, seria melhor não ter feito um filme blockbuster que deu destaque a ela."
"É, você me pegou... Está cadastrado."

Dei um grito de alívio. Enfim poderia fazer meu curso on-line de filosofia.

domingo, setembro 30, 2018

Desaniversário

Dora já está acostumada a ser a mais nova da turma. Não é que apenas pareça mais nova. Ela realmente é mais nova, muito mais. Passaram-se 16 anos do seu nascimento, mas, na prática, a menina só tem 4 anos.

Ok, vou explicar: Dora nasceu em 29/02, ou seja, num ano bissexto. Então, durante 4 anos, ela simplesmente não cresceu fisicamente, apesar de seu intelecto ter se desenvolvido.
Agora, seus pais tentam mais uma escola, para ver se ela se adapta. Dora imagina que todo mundo vai olhá-la torto, achando que aquilo é alguma pegadinha. E a situação iria piorar mais ainda quando ela começasse a responder certo ao professor. Os outros se sentiriam humilhados.

Mas eu não sei de nada disso quando Dora entra na sala de aula, nervosa. O diretor a acompanha para explicar à turma por que a menina está ali. Quando os cochichos começam, ele pede silêncio e pergunta se alguém poderia dar suporte à nova aluna.

Levanto a mão e Dora se senta ao meu lado.
– Obrigado, Lorena – agradece o diretor, mas na verdade faço isso só por curiosidade.
– Essa história toda é verdade? – disparo para Dora. – Acho difícil acreditar.
– Ah, é? E quando você nasceu?
– 1º de abril.
– Rá, rá! Grande piada.

A reação típica: risadas ou sorrisos amarelos. Ninguém vai às minhas festas de aniversário porque acham que é brincadeira. Até aquela menininha superdotada desdenha.

– E quando ninguém te dá parabéns?
Me viro para ver quem falou. É uma garota desconhecida.
– As pessoas me dão parabéns, mas quase sempre no dia 28/2 ou 01/03 – responde Dora.
– Estou falando de mim – disse a garota, ríspida. – Eu nasci à meia-noite, entre dia 31/12 e 01/01, então fico meio em dúvida em que dia nasci. Mas não faz diferença, porque todo mundo só está berrando, soltando fogos e bebendo. Prazer, sou Medina, a rabugenta.
– Formamos um belo trio – comento.

– E aí, Lorota, já arrumou emprego de babá?
Só podia ser o mala do Aparecido. Ficou chato assim porque faz aniversário 12/10 e, desde pequeno, só ganha um presente, incluindo Dia das Crianças. Acha que tem direito a encher o saco de todo mundo.

Dora deve ser a aluna mais excêntrica da turma agora. Até então, os mais peculiares eram os nascidos no Carnaval, na Semana Santa e em Corpus Christi. Todo ano comemoravam numa data diferente para acompanhar a celebração móvel. Quase ninguém dava parabéns, porque não há Facebook que dê conta de lembrar.

O problema é que há cada vez mais discriminação só por causa do dia em que a pessoa nasceu. Esse não era o mundo que o Chapeleiro esperava quando criou esta escola.



sábado, setembro 22, 2018

A sociedade secreta

Um dia ainda vou descobrir que existe uma sociedade secreta dos guarda-chuvas. Só isso poderia explicar como os vendedores de sombrinha e "familião" aparecem no exato instante em que cai a primeira gota do céu. De onde eles surgem? Onde fica toda a carga em tempos não pluviais?

Minha teoria é que eles vivem nos bueiros junto com as Tartarugas Ninjas, mas não têm um rato como mestre. Certamente são muito devotos de São Pedro e pedem sempre discernimento para saber quando devem ir para a luz ou mesmo para solicitar chuva. Mas também contam com um sistema avançado que deixaria o Instituto de Meteorologia babando.

Além disso, é uma organização tão poderosa que está intrinsecamente ligada aos guarda-chuvas desaparecidos em ônibus, metrôs, trens, escolas, bancos, nos mais diversos lugares. Sempre nos perguntamos como guarda-chuvas podem evaporar, sumir tão fácil. E se a Umbrella Corporation estivesse por trás de tudo?

Quem sabe seus tentáculos se estendam até as canetas, que brotam perto dos locais de prova após desaparecer misteriosamente em outros lugares. Fico fascinado com a capacidade desses profissionais caçarem concursos e estarem antenados, junto aos flanelinhas, que têm a agenda anual do município na cabeça.

É desse nível de organização e estratégia que o Brasil precisa. O próximo passo provavelmente será implantar cursos de direção de guarda-chuva, para as pessoas que esquecem que existem outras ao redor, quase furam seu olho ou arrancam sua peça quando passam bem educadamente.
Meu medo é se aliarem ao Detran e se transformar numa máfia que vai exigir renovação de guarda-chuva a cada 5 anos e vistoria anual.

Pensando bem, melhor deixar como está.

domingo, setembro 02, 2018

Os gauleses

Um mistério que sempre me deixa intrigado são as pessoas paradas na beirada da plataforma do  CANTO em Botafogo. Elas estão sempre esperando o metrô da Linha 2, com o letreiro verde, que vai para Pavuna e chega vazio ali.

Eu entendo perfeitamente quando todo mundo se aglomera na beirada na plataforma do MEIO, pois a porta desse lado abre primeiro. Aí começa a dança das cadeiras da vida real e a gente compreende por que brincou disso na infância: era tudo preparatório para sentar no metrô. É o estouro da boiada e não adianta reclamar com a tia que o amiguinho deu um chega pra lá em você para tirar seu assento.

O que não entendo é as pessoas ficarem na beirada da outra plataforma. A porta do lado direito abre depois, quando todo mundo no lado esquerdo já disparou e ocupou tudo. Mas os passageiros continuam estacados na plataforma errada, mais irredutíveis que a aldeia de gauleses de Asterix.

O que sempre acontece é que chega o metrô da Linha 1 e você, cheio de paciência, espera as pessoas à sua frente entrarem primeiro. Só que você descobre que aquelas pessoas são gaulesas, apenas atravancando o caminho, no meio da passagem, e ainda se ofendem se os outros reclamam ou esbarram sem querer.
Imagino que um dia, quando eu tentar contornar um dos gauleses, serei segurado pelo braço.

– Senhor, vou pegar a Linha 1 – aviso.
– Espere conosco, meu irmão.
– Desculpe, mas vou descer na São Francisco Xavier.

Tento me desvencilhar, mas o homem é mais forte. O apito da porta soa.
– Você já ouviu falar na Iniciativa Expectantes?
A porta se fecha e eu suspiro frustrado.
– Junte-se a nós, os Expectantes da Primazia da Porta Direita. Cremos que um dia a Porta Direita terá a Primazia. Nossa Expectativa não morrerá jamais.
– Perdão, eu sou católico. E sei que só a porta da esquerda...
– Não seja incrédulo! Espere e verá!

O metrô da Linha 2 surge do túnel, o letreiro verde cintilando. Ele desacelera e para. Posso sentir o peso da Expectativa – mas não meu braço, que está dormente.
Os passageiros da outra plataforma já se preparam; eu não me surpreenderia se pusessem as mãos no chão como se fossem velocistas.

E a Porta Direita se abre primeiro.

Sou ofuscado por uma luz verde berrante, ouço gritos. Quando consigo enxergar de novo, os gauleses sumiram.

Atordoado, vejo no chão um panfleto dos Expectantes. Após a Abertura da Porta, eles acreditam que o metrô da Linha 2 irá até Jardim Oceânico.

Melhor esperar sentado. Não no metrô pra Pavuna.

domingo, agosto 12, 2018

O início da criminalidade

Há alguns anos, decidimos viajar para Miguel Pereira. Eu ia com meus pais, minha irmã e meus tios. Pegamos o ônibus na rodoviária por volta das 18h.
A viagem seria tranquila se não chovesse. Mas, ainda na Presidente Dutra, começou a chover muito, muito mesmo. Se de dia já é complicado, imagine de noite na estrada.

No meio da serra de Miguel Pereira, descobrimos que tinha acontecido um deslizamento. Aparentemente a tempestade fez desabar uma parte de uma fábrica de gelo, aí já viu, juntou a chuva torrencial com uma enxurrada da indústria.
O ônibus ficou parado um tempão na estrada, noite adentro. Então, o motorista resolveu fazer um retorno e ir por Paracambi, pois seria impossível percorrer o caminho normal.

Quando chegamos a Miguel Pereira, já era madrugada, uma escuridão, e estávamos perdidos. O lugar estava deserto, não parecia haver ninguém a quem perguntar a direção do hotel. Vimos, então, um velhote. Cheio de esperança, fomos falar, mas ele estava mais pra lá do que pra cá.

Eis que vejo a certa distância um casal andando. Parti atrás deles de capuz levantado, cabeça baixa, na rua vazia, parecendo um trombadinha. Felizmente os dois não me viram antes, senão teriam saído correndo. Eles deram as orientações para chegar ao hotel e ficamos mais aliviados.

Percebemos que seria necessário contornar um lago de porte razoável, mas havia um pontezinha cruzando que poderia servir de atalho. Ahn... melhor não arriscar, ainda mais com malas. Pense só na gente caindo da ponte dentro do lago no meio do breu.

Fizemos todo o caminho contornando o lago até o hotel. Apertamos o botão do interfone. Nada. Afundando o botão no interfone. Nada. Batemos palmas, chamamos. Nada. Acho que não tínhamos o número do telefone, ou o celular não poderia ligar. Começou a bater o desespero. A gente ia ficar preso do lado de fora do hotel no frio, sem dormir, exaustos?

Só havia uma opção: eu precisaria pular o muro e procurar alguém lá dentro. Se o casal já achasse que eu era delinquente, agora teria toda a certeza.
Subi na mureta e pulei por cima da grade. Andei até o prédio e, do nada, surgiu um homem lá de dentro. Ele levou um susto e ainda me deu bronca por ter feito aquilo. Engraçado que ele estava dormindo e não ouviu nada...
Conseguimos enfim fazer o check-in, esgotados.

No dia seguinte, à luz do dia, demos graças a Deus por não termos pegado a ponte: era uma coisa frágil de madeira e sem dúvida teríamos parado no fundo do lago.
No fim das contas, foi uma viagem prazerosa só com esses pequenos incidentes. Foi assim que comecei minha carreira no crime.

sexta-feira, agosto 03, 2018

Doce tempo

A viagem estava demorando muito. Resolvi comer brevidades.

domingo, julho 29, 2018

Estripulias

Que atire a primeira pedra quem nunca fez estripulia – o dicionário está mandando eu escrever "estrepolia", mas nem a pau! Começo aqui minha traquinagem.
Qualquer um tem uma historinha de criança, por mais quietinha que a pessoa seja (e eu não fui uma criança assim, boquiabertem-se).

Num dos casos, saí correndo como um louco pelo terraço do apartamento onde morava. Como nunca fui um velocista do tipo do Bolt (nem mesmo do tipo do Rubinho), não sei como consegui derrapar e fui com tudo para cima do viveiro dos passarinhos. A gaiola grande desabou, derrubando água e comida, quase matando os bichos do coração. Prevendo uma bronca daquelas, aproveitei a ausência dos meus pais e corri para arrumar, varrer e enxugar tudo. Ufa, tinha apagado todas as pistas.
Horas depois, quando meu pai foi dar uma olhada nos passarinhos, ficou espantado porque eles estavam sem água e praticamente sem comida. Ou seja, o inteligente quase matou as aves de fome e sede. Parabéns, Gabriel, serviço completo. Não tive jeito a não ser confessar – merecia uma penitência de 10 Ave-Marias sem poder dar um pio.

Nessa área de travessuras, sempre existe o risco de um pirralho meter o dedo na tomada. E quando o fedelho quer fingir que a tesoura é um plugue? Pois é, eu fiz isso quando era pequeno. Enfiei a tesoura com vontade na tomada, mas o anjo da guarda tinha feito um pacto de não agressão com Murphy (não o Eddie) e sussurrou no meu ouvido: "Pega a tesoura de cabo de plástico, não a toda de metal, pelo amor de Deus." Na mesma hora saíram faíscas da tomada, eu levei um susto e taquei a tesoura de volta na gaveta da máquina de costura.
Mais tarde, eu não estava presente, mas soube que ocorreu o primeiro caso de delação ingênua registrado na História. Minha mãe pegou a querida tesoura e falou algo do tipo: "Que estranho, parece que a ponta tá derretida." Minha irmã prontamente disse: "Gabriel enfiou na tomada e saiu foguinho!" A tesoura teve que ser amolada e a história entrou para a posteridade. A expressão, inclusive, já consta no Dicionário Cumaddig (435ª edição) como sinônimo de mongolice.

Situações assim existem várias, como quando espalhei óleo pela casa toda ou quando quebrei uma porta de vidro em cima de outra pessoa (mas evito comentar para não ser fuzilado com os olhos rs).
Novamente, o mais interessante neste papo todo é saber: Quais estripulias vocês já fizeram? Ou mesmo estrepolias, se você for mais puritano; eu não julgo.

quarta-feira, julho 25, 2018

Sinais

Na estrada, uma placa:
ATENÇÃO
CURVA ACENTUADA
Esse Novo Acordo já está extrapolando.

domingo, julho 22, 2018

Desejo a todos uma boa viagem

O metrô se aproxima da plataforma de São Cristóvão sob o sol forte. Como sempre, todos os vagões estão bem cheios. Consigo me espremer para dentro e achar um lugar para me segurar. O trem faz seu percurso ao ar livre até a Cidade Nova e eu me perco em pensamentos, é um caminho nada novo.

Quando volto à realidade, vejo um grupo junto à porta do outro lado, devem ter acabado de entrar. Estão todos de vermelho, provavelmente trabalham juntos nas Americanas ou numa empresa qualquer. O trem segue seu caminho e já estou pronto para voltar ao devaneio quando o metrô para entre duas estações.

Solto um suspiro, que se multiplica pelos outros passageiros. Ouço algumas reclamações. Acontece sempre antes da Central, mas é de praxe resmungar, né? Essas tais linhas do metrô que na verdade são uma coisa só...
Desta vez o condutor do trem não fala o discurso de costume. Até ele deve estar cansado de justificar o engarrafamento subterrâneo.

Um celular começa a tocar uma música famosa: "Bella Ciao". Dá vontade de cantar o refrão da série de TV, mas nesta hora, não sei como, um espaço parece se abrir no vagão, e o grupo vermelho emerge com máscaras do Romero Britto e entoa num coro de duas vozes:

Esta manhã eu já pensei
Crivella, tchau, Crivella, tchau, Crivella, tchau, tchau, tchau
Esta manhã eu já pensei
Chegou a hora do pastor

Os passageiros não sabem se riem ou se ficam espantados. Consigo ver que um dos Romeros abre a mochila e saca uma impressora HP, e outro surge com um laptop. Com os dois ligados, o primeiro lunático começa a imprimir algo. O que raios aquelas pessoas estão fazendo? Tem início um burburinho entre os passageiros.

– Silêncio! – grita o Romero da HP e todos obedecem, chocados. – Vamos ficar parados aqui...
– Ah, grande novidade – interrompe uma mulher. – Todo dia a gente fica parado várias vezes.
– Se você não calar a boca, vamos te trancar na estação Carioca 2. Ou quem sabe dar uma nadada na Gávea alagada?

A expressão da mulher é de desespero. Ela se cala.

– Continuando... – retoma o Romero. – Fizemos o condutor de refém e vamos ficar aqui imprimindo dinheiro. Nosso objetivo é torná-lo popular, como fez nosso mestre com a arte. Somos Paciência, Piedade, Pechincha, Glória, Cosmos, Abolição, Bonsucesso e Encantado, comandados pelo genial Todos os Santos. Espero que ninguém se sinta ofendido pelos nomes.

Se alguém iria se manifestar, não dá para saber, pois neste momento o metrô se põe a andar, mas quase no mesmo instante dá uma freada brusca e os passageiros só não caem todos no chão porque não há tanto espaço de queda.

– Acho que estamos tendo algum problema com o condutor – fala o Romero do Lap, se levantando. – Vou lá verificar.

Ele sai do nosso vagão. A impressora continua a todo vapor, sendo abastecida com o que parece papel-moeda. O que vai saindo é cortado por um dos Romeros com uma guilhotina que veio sabe-se lá de onde. Não acredito que aquilo está acontecendo. Será que eles viram muito O homem que copiava?

De repente, pelo alto-falante do vagão, sai uma voz: "Em nome do Metrô Rio, peço desculpas pela frenagem automática do sistema."
– Agora, sim. Não suporto gente que não dá satisfação – comenta um dos Romeros.

O trem, então, volta a andar repentinamente. Todos se entreolham, confusos. Os Romeros parecem não se importar.
O Romero do Lap volta para nosso vagão, estão todos em suspense.
– Pessoal, já consegui comprar um fone de 3 metros de fio e aquela balinha mastigável que eu adoro. Falei para o condutor tocar o bonde. Também não quero que ninguém leve esporro do chefe.

Quando o trem já vai parar na Central, os malucos pegam todo o dinheiro, desligam os aparelhos. No segundo antes de se abrirem as portas, eles gritam "Onde está a Linha 3?"
Os oito pulam para fora e o dinheiro voa para todo lado. Os passageiros não se contêm e pegam as notas, alguns até se estapeiam.

Olho para a minha cédula e vejo que é apenas um panfleto convocando para uma manifestação a favor do impeachment do prefeito. É cada coisa ridícula que se faz para divulgação...
Entro no evento do Facebook e clico em "Comparecerei".

sábado, julho 14, 2018

Dia de casório

Há uns dez anos, fui convidado para o casamento de uma colega. Não éramos próximos, mas trabalhávamos juntos, então fui chamado.

Eu e Carla nos encontramos e fomos de táxi para Botafogo. O motorista nos deixou na rua e nos aproximamos de um portão que guardava o jardim de uma bela capela. Perguntamos a um homem que estava ali: “É aqui que vai ter um casamento?” Ele confirmou e subimos a ladeira até a capela.

Sentamos num banco do meio e esperamos. Esperamos muito, e nada da noiva chegar. Um cara no banco da frente estava conversando com as pessoas do nosso lado, ofereceu bala para elas, ofereceu pra gente mesmo sem nos conhecer. Nós aceitamos para passar o tempo.

Enfim, continuei esperando. Mas finalmente começou a tocar a primeira música. Entrou o noivo com a mãe, depois o pai dele com a mãe da noiva, a procissão de padrinhos. Era chegada a grande hora. Ouviram-se os primeiros acordes da Marcha Nupcial, as portas da igreja se abriram e a noiva entrou com o pai.

Na mesma hora, falei pra Carla: “Amor, essa não é a minha colega!”
A gente tinha entrado no casamento errado!

Esperamos os dois chegarem ao altar e, de forma discreta, saímos da capela – se é que dá pra sair discretamente do banco do meio logo depois que a noiva chegou. Começamos a rir muito e fomos tentar descobrir onde era o casamento mesmo. Descobrimos que era um pouco mais à frente, que o local não era uma igreja e que a cerimônia já tinha acabado...

Envergonhado, contei o ocorrido a um conhecido lá e ele simplesmente disse: “Acontece.”
Acho meio difícil isso ser comum, mas sempre conto pras pessoas darem boas risadas.

domingo, julho 08, 2018

O lago da casa

– Olha que legal, mãe, um lago!
– Lucas, não se apoia na janela, é perigoso!
Mamãe me arranca do parapeito e me dá um puxão de orelha.
– Ai! – berro e esfrego a orelha.
– O que é isso? – pergunta papai ao corretor.
– É um terreno abandonado. Uma construtora ia fazer um hotel, mas a obra foi embargada e, com as chuvas, vai acumulando água. Mas não se preocupe: a Prefeitura sempre faz vistoria e tem até peixes aí para comer possíveis larvas.

"A obra foi embargada"? Já ouvi mamãe falar que titia estava com a voz embargada por causa do choro. Será que todo mundo começou a chorar e não deu pra continuar a obra?
Mas o que me interessa mesmo daquele monte de palavras são os peixes. Então é um lago mesmo! Imagina, a janela do quarto de casa dando pra um lago!

– Pai, mãe, vamos comprar, eu quero um lago!
– Filho, temos que pensar ainda qual é o melhor apartamento, tá? – responde papai. – Obrigado, já está bom, nós vamos agora – completa ele ao corretor, e vamos embora.

No caminho para casa – que em breve não será mais nossa casa –, fico calado visualizando o lago: uma água verdinha cheia de plantas, umas colunas pequenas de pedra com passarinhos pousados... Nunca vi nada parecido no meio da cidade. Nas ruas mesmo mal tem árvores.
Não sei se por minha insistência ou por causa de outra coisa, meus pais resolvem comprar a casa do lago.

Sabendo que eu vou querer admirá-lo todo dia, eles deixam a porta do quarto deles trancada pra eu não cair na tentação de dar uma espiada sem ninguém perto.
Passarinhos dando rasante pra beber água, peixes ondulando, libélulas sobrevoando... aparece até uma garça alguns dias!

Um dia acordo de um dos meus sonhos com vontade de ir ao banheiro. No caminho, escuto meus pais cochichando.

– Rui, você soube que os vizinhos estão reclamando do terreno? Mesmo tendo controle da Prefeitura, parece que conseguiram na Justiça que aterrem tudo. Sabe como é, pessoal paranoico com dengue, essas coisas... Vão acabar com o lago.
– Caramba... Coitado do Lucas. Ele vai ficar inconsolável.

Eu não sei o que é inconsolável, mas sei que estou triste, muito triste. Começo a chorar e até esqueço do xixi.
– Lucas, você tá acordado? – pergunta mamãe, aparecendo na porta da sala.
Acho que é com a voz embargada que solto minha dúvida:
– Mãe, árvore dá dengue?
– Não, filho, é quando tem água parada... – começa ela, mas eu a interrompo:
– Então por que não tem árvore nenhuma na rua? Por que a gente não vê natureza por aqui? Por que querem matar o lago?

Mamãe fica em silêncio. Papai continua calado, então fala:
– Você quer que eu te leve lá?
Na mesma hora minhas lágrimas secam. Eu ergo os olhos.
– A gente pode ir?
– Eu dou um jeito.

Alguns dias depois, papai "mexe os pauzinhos" (não sei o que pauzinhos têm a ver com a história) e conseguimos entrar no terreno com uns funcionários da Prefeitura.

Paro na beira do lago, observando maravilhado. Levo um susto com um passarinho que dá um rasante em mim, então começo a rir. Pego a câmera do papai e vou tirando foto atrás de foto pra registrar o grande evento. A garça dá o ar da graça e surge, andando no seu passo lento, com certeza querendo pegar um dos peixes. Fecho os olhos e inspiro fundo para sentir todos os cheiros.

Então abro os olhos e vou mais até a beirinha, me abaixo e arranco um talinho de planta. Guardo de recordação na minha carteirinha.
Quando me levanto, um bem-te-vi começa a cantar. Eu sei que está na hora de partir.

domingo, julho 01, 2018

Inveja branca

"Quando oiei meu amigo lendo
Em Paris numa mansão
Eu invejei, meu Deus do céu, ai
Mas que tamanha ostentação

Falam que é inveja branca
Todo mundo usa a expressão
Isso num disse
É só modinha
Conheço bem
Meu coração"

sábado, junho 30, 2018

E segue o baile

Sexta à noite na volta do trabalho, estou subindo as escadas do metrô da Afonso Pena quando me deparo com uma cena inusitada: uma garota está dançando balé na saída da estação para divulgar uma escola de dança próxima. Levanta a perna lá no alto, rodopia várias vezes.

Não sei o que dá em mim, mas me sinto como se estivesse em casa dançando de palhaçada e, mal subo o último degrau, dou um salto e faço uma pirueta. Na mesma hora a garota estaca, quase se desequilibra, e os outros integrantes da escola me encaram entre chocados e risonhos com os panfletos nas mãos.

Vendo que estou vestido a caráter para a festa junina que aconteceu no trabalho, uma menina grita:
– Tá debochando, caipira? Agora vai ter que dançar forró!

Ela me puxa para uma dança e, antes que eu possa impedir, estamos sacolejando de um lado para outro ao som de uma gaita que surgiu sabe-se lá de onde. As pessoas que passam aplaudem. Quando me vejo livre, faço uma reverência e vou embora.

Você deve estar pensando: “Não é possível que o Gabriel fez isso.”

Pois é, não é mesmo. Isso tudo só foi minha imaginação insana quando vi a menina dançando balé.

segunda-feira, fevereiro 16, 2015

Respeitável público!

Prepare-se para o espetáculo...
Não vai faltar obstáculo!
À sua direita, a mulher barbada
À sua esquerda, uma baita enrascada
O homem que engole fogo
E você, que engole sapo
É claro que tem palhaço
Você participa fácil
Ao final, domar a fera
Antes de deixar a Terra

Corda bamba

Andando na corda bamba
Andando andando andando
A menina bamboleia
A sombrinha bambeia
Sem rede de proteção

Poesiando

Poesia
é encontrar alegria
onde só se vê agonia
É a roca que chia
enquanto se fia
É um gato que mia
enquanto dá cria
É encontrar com a Lia
aquela antipatia
É comer aletria
sofrendo de azia
É visitar sua tia
Cheia de manias
É terminar o poema
com outro fonema

Tito

Gostará de periquitos
ou adorará mosquitos?
Provocará faniquitos
e levará muitos pitos
Ou entenderá o que foi dito
com um coração contrito?
De tanto que o cito
eu já o fito
construindo monolitos,
contemplando aerolitos...
Será um mito

(A Luciana Soares)

Ou à la carte ou a quilo

Ou se come banana e não se planta bananeira
Ou se planta bananeira e não se come banana 

Ou se chupa manga e não se toma banho de mangueira
Ou se toma banho de mangueira e não se chupa manga

Ou se morde a maçã e... que poema maçante!