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domingo, dezembro 25, 2011

Otto

Otto von Schmerz é um ilustre acadêmico. Aclamado em todas as importantes universidades — seus artigos são citados à exaustão pelos catedráticos —, grande estudioso da língua materna. Apesar do nome germânico, tem como pátria a nação brasileira, mas isso não o impede de conservar no sangue o rigor e exatidão alemães. Abomina todo e qualquer erro e procura sempre passar longe de pessoas e lugares onde seus ouvidos podem absorver palavras deturpadas. Ou melhor, tenta nem mesmo ouvir o que é dito ao seu redor sobre sua língua idolatrada.

Absorto em seus pensamentos corretos, o acadêmico não percebe um desnível no chão, e seu corpo é projetado dolorosamente. Antes que possa se recompor, para seu horror, alguns logo vêm socorrê-lo. Despreparados, seus ouvidos captam uma palavra com um grave erro, e ele sente uma forte dor, como se os tímpanos fossem estourar. Sem querer demonstrar nada, von Schmerz não se digna a olhar os demais e apenas parte andando o mais rápido que pode.

Os ouvidos parecem estar mais sensíveis agora, e ainda latejam. Desnorteado, o catedrático adentra seu carro, e o motorista o leva para casa. Conseguira esse ótimo chofer surdo-mudo, que nada conversa com ele. Finalmente, já se encontra em casa. A governanta, sempre tão eficiente, estranhamente não aparece. Na cozinha, há um bilhete sobre a mesa. Temeroso, ele apanha o papel e, ao dar com o texto, seus olhos sofrem uma dor aguda. Ele larga bruscamente o papel e, sozinho agora, grita. Não havia nada de errado, mas... havia uma forma coloquial. O que estava acontecendo com ele?

A biblioteca, a biblioteca. Ele precisa se refugiar em sua biblioteca. Os clássicos abençoados o esperam lá. O único lugar onde não há perigo. Nenhum erro. Nenhuma informalidade. O acadêmico apanha um tomo raro na prateleira e acaricia a capa. Aliviado, senta-se em sua poltrona. Só quer abrir ao acaso o volume e ler qualquer trecho daquela história que já lera diversas vezes. Precisa tomar ar.

Página 125. Ele pousa o dedo sobre o papel para começar... contudo sente uma dor atroz. Não é possível, ali não poderia ter nada. Seu corpo diz que ele não pode olhar, mas a curiosidade é mais forte. O olho lateja terrivelmente. Não, ali havia palavras erradas, com acentos inconsequentes, traços que nem se usavam mais!

O livro já queima em suas mãos e desaba no tapete. Otto se levanta e olha ao redor, e as lombadas parecem querer feri-lo. Não se dera conta até aquele momento, mas o mundo todo estava errado. Ele não podia mais ler.

domingo, janeiro 10, 2010

Era, é e será uma vez...

Todo mundo adora uma boa história. Pode ser apenas uma história contada naquele momento em que você quer ser o centro das atenções, num bar por exemplo, para os amigos, ou aquelas que brotam dos livros, ou aquelas novelas água-com-açúcar. Desde os primórdios, as pessoas se reuniam em volta de fogueiras para ouvir os mais velhos ou os aventureiros – ou talvez apenas bons contadores ou charlatães -, e surgiam por aí muitas lendas, fábulas, contos de fadas e histórias da carochinha.

Tramas, personagens, surpresas e afins, eu sempre admirei contar histórias, especialmente as pessoas que se dedicam a isso e parecem trazer um outro mundo de fantasia para perto de nós, tornar o que já é tão conhecido à nossa volta em algo estranho e mágico ao mesmo tempo. Sinto nesse gosto uma certa motivação para a idéia do jornalismo ter se aproximado de mim: é contar histórias, não é? Ser o primeiro a contar alguma coisa, fazer descobertas, mostrar o mundo aos outros. Mas não é tão encantador assim. Quer dizer, até pode ser para quem é apaixonado.

E também essas técnicas jornalísticas de contar do mais importante para o menos... não me cativa. Eu gosto é do antigo e do nariz-de-cera, ainda que não tenha habilidade suficiente para pô-la em prática. Ir criando o clima, o suspense, o segredo, o mistério, que vai culminar na descoberta e no que é importante. Que graça tem contar direto?

Todas essas histórias presentes em livros e filmes me apaixonam. Mas não é só necessária uma boa história, mas o jeito certo de ser contado, os detalhes certos a serem colocados, inovação... é difícil. Eu mesmo tenho várias e várias ideias borbulhando sempre, mas não sei como colocar satisfatoriamente no papel ou na tela. Nunca parece estar bom, sempre poderia estar melhor, desenvolver é um problema, finalizar, pior ainda. Rubem Fonseca em um de seus contos revela o segredo do escritor: “As palavras são nossas inimigas.” Tantas coisas maravilhosas para dizer e desvendar, mas as palavras impedem muitas vezes.

Tenho uma percepção que gosta de ver a vida e suas circunstâncias como uma história, como se estivéssemos num livro, filme ou até num game. Personagens que se cruzam, situações que se desenrolam, lugares intrigantes. Um portão, um jardim, uma caixa fechada, um beco, um quarto, um caderno, uma chave.... centenas e milhares de objetos e locais que remetem a signos e mistérios e histórias e referências, a imaginação voando sempre, a bordo de um triciclo de Bobby. Parece amenizar a vida e torná-la mais interessante também, mesmo em meio a adversidades. Só não se pode viver num mundo paralelo e esquecer que existem pessoas reais do seu lado.

Entre em grandes armários, caia em buracos de coelho, conheça um castelo com um porteiro-robô, ande por um caminho de pedras amarelas e se divirta num sítio brasileiro. Acomode-se num sofá que adentra o corredor e morda uma maçã. Senta que lá vem história sempre, e aproveite para ver tudo com novos olhos.

terça-feira, dezembro 29, 2009

Um pedido

Eles querem-na de volta. O que foi feito de sua casa? Ela sumiu num certo dia e já se passa quase 1 ano que não a veem. Morando em caixas de papelão, espalhados, desorganizados, empoeirados, amassados, esquecidos... Já não se sabe direito o que cada caixa reserva aos que a rodeiam. Diversos tesouros empilhados a esmo, sem uma ordem adequada. São depositários de letras e mais letras, que a princípio parecem apenas desenhos dispersos por uma superfície de celulose, mas que, ao unirem forças, geram algo tão surpreendente que nunca ninguém conseguiu, nem conseguirá, esgotar essa fonte.

A maioria deles foi trazida para lá pelo irmão de Liesel Meminger, filha de Markus Zusak. O garotinho, ainda pequeno, branquinho e de cabelo meio arrepiado na frente, aparecia no quarto e deixava, cada dia um – às vezes dois ou até três -, na casa que ainda existia, aliás, que ainda estava lá. Mas foi só no começo. Alexander – mais conhecido como Axt – chegou um dia e se espantou de ver que todos estivessem em caixas. Onde estava aquela grande estrutura de madeira, com diversos andares? Arrumou-se um jeito. Porém, aqueles livros já não suportavam viver embaixo de um pano sujo de tinta, tantos e tantos, que Axt já nem mais sabia quem estava ali ou não; não registrara a identidade de cada um. Melancólicos, os livros já iam perdendo sua identidade, sem saber o que era um lar. Outros mais vieram se juntar a eles, através de um veículo que transitava embaixo do oceano.

Até que chegou o momento em que até o menininho resolveu parar de levar a cabo a sua arte. Do que aquilo valia se os livros permaneciam negligenciados e perdiam seu encanto e seu poder mágico? Eles ainda não entendem por que aquele senhor de paletó e chapéu coco apareceu um dia, prometendo reformar a casa deles, e depois sumiu, levando a estante que lhes dava guarida. Só não há choro porque as lágrimas podem enrugar e manchar as páginas já empoeiradas. Mas os livros pedem encarecidamente solidariedade e respeito nesta época que teoricamente deveria ser de harmonia e perdão.


*Baseado em fatos reais.

terça-feira, janeiro 06, 2009

Ilda

19 de dezembro. Esse foi o dia da primeira ligação. No estágio. Atendo o celular. Ligação a cobrar. Espero - quem sabe se não é alguém mesmo? Escuto uma voz estranha de um homem, falando seu próprio nome. Que não entendi, mas dá pra perceber que é engano. Desligo sem falar nada.

Lá está o celular tocando de novo. Desligo sem cerimônia. Mas por que não aviso que é engano? Ah, já não é a primeira vez que alguém me liga direto por engano.

No ônibus, indo para uma festa. Celular. Já decorei o número do celular, lá está ele. Sem paciência, resolvo dar uma trégua. Atendo. Ligação sem cobrar. "Ilda?" Meu nome é Gabriel. Falo com o senhor, acho que entendo algo de hospital e esposa. Engano, desligo.
Muitas vezes o celular ainda toca, muitas vezes eu desligo.

Outro dia. O número fatídico. OK, eu atendo. "Ilda?" "Quero falar com minha esposa. Tá caindo errado." "Senhor, o número que está errado, não tem como cair várias vezes errado."

Fico com pena do homem. Ele tem um jeito de falar de pessoa humilde, parece de interior. Está realmente querendo achar Ilda. Parece algo urgente, premente. Será mesmo um hospital?

Mas como ele não sabe onde está a esposa? A esposa fugiu, ele tem um número falso. O meu número pertencia à esposa. Ela se livrou do número. Ele não está bem, está num hospital. Quer falar com ela.

O celular toca. Atendo. Ligação a cobrar. Os créditos sumiram. Continuo. "Ilda?" Explico novamente ao senhor.
Nova ligação. Mais desculpas. Ele não consegue, não quer entender o que se passa.

Sou muito curioso. Por que não pergunto o que está acontecendo? Mas pra quê? Em que me interessa de fato? Deixa o homem sofrer sozinho.

Ele não ligou mais. Acho que entendeu.

Descanse em paz.

domingo, dezembro 28, 2008

A panela e o ventilador

Claro que nem lembro disso, minha mãe que me contou. Com menos de 2 anos, passei por uma experiência que poderia ter sérias conseqüências. Estava na casa de minha tia, no colo de minha genitora. Uma panela de pressão estava no fogo, aparentemente em estado normal. Porém, alguma coisa se encontrava problemática no sistema dela. A pressão que deveria ser extravasada não estava saindo adequadamente.

A panela explode.
O fogão afunda.
A tampa voa.
Passa raspando a minha cabeça.
Bate com força no teto.
E cai com estardalhaço.

Imagino que deva ter sido um susto tremendo. Até hoje tem a marca lá no teto, e o fogão teve que ser trocado. E eu escapei.

*****************************************************

Hora da comunhão. Em pé, vestido com a túnica de acólito, para servir no altar na Nossa Senhora do Líbano, não estou fazendo nada, pois os outros coroinhas já foram ajudar os padres durante a Eucaristia. Um deles, ainda pequeno, está sentado numa cadeira no altar.

Subitamente, um barulho alto. Algo bate com força numa parede do altar e, tamanha a intensidade, voa e bate na outra, e cai perto de mim. Na verdade, acho que passou mais perto do menino do que de mim.

Assustado, vou ver o que é e percebo, espantado, ser a pá de um ventilador. Já estão correndo para desligar todos. O ventilador, preso a uma pilastra, perto dos bancos, nem está tão perto do altar.
As outras duas pás do ventilador também se soltaram e uma até bateu no púlpito do padre. Deus protegeu.


Parece até um filme antigo a que muita gente assistiu... Mas tenho uma premonição de que nada de ruim vai acontecer mais.

sábado, dezembro 27, 2008

Máquina mortífera

Esta semana fui ao banco encerrar minha conta - o estágio atual deposita em outro banco. Como de costume, o atendimento demora demais, tanto os caixas quanto as pessoas encarregadas do encerramento.

Estava eu na fila quando, de repente, começa a cantar uma cigarra. Não, o inseto não havia invadido a agência, era apenas o toque de um celular. Não era novidade pra mim, mas comecei a divagar, o que também não é surpresa. A mulher não demorou a atender, pois imagino que não seria aconselhável demorar. Quem sabe se a cigarra cantasse muito tempo o celular explodia?

Voltando ao ócio totalmente não-criativo, esperei impacientemente o único caixa atendendo. Subitamente, entro num filme de terror: começa a tocar a música de "Psicose". Aquele som agudo corta o ar e todos riem - de nervoso? O cara atende o celular. Deve ser a Samara.
Depois pergunto a ele onde conseguiu o toque. Talvez seja com a fornecedora The Ring tones.

Não sei mais quantas horas se passaram naquela fila. Devo ter criado varizes nesse tempo. Começa então a tocar a música do Plantão da Globo. A mulher atende. Com certeza ou é uma notícia importante ou alguém morreu. Nas circunstâncias atuais, com certeza algum falecido.

O último dos caixas diz que tem amigo oculto no andar de cima e fala que já volta. As pessoas na fila estão entorpecidas e começam a criar teias de aranha e não reagem.
É, "O Amigo Oculto" combina bem com o clima geral. Acho que daqui a pouco vou conversar com o Charlie.

Parece que passaram dias. Olho em volta e vejo o cara do celular morto no chão em uma poça d'água. Sete dias então.
Ele está atrás de mim na fila. Droga, não faz diferença nenhuma.

sexta-feira, setembro 01, 2006

"Seja o que Deus quiser..."

Realmente, acho que escapei de uma catástrofe... Leiam e formem suas opiniões:
Ontem, estava eu no ônibus, voltando da faculdade, sentado, quando, vinda de trás de mim, soou uma voz: "Seja o que Deus quiser...", num tom monótono, espaçando bem as palavras. Fiquei apreensivo com aquelas palavras, principalmente com o tom com que foram pronunciadas. "O que raios seria aquilo?", me perguntei, quase me virando para trás, pois percebi que o cara falava sozinho.
Meus pensamentos foram acalmados quando uma ambulância que tocava sirene passou ao lado do ônibus, querendo passar os carros. Aquela frase sinistra só poderia ser algum tipo de superstição quando apareciam ambulâncias, pois lá dentro se encontrava alguém doente ou ferido ou às vezes até às portas da morte, e o homem às minhas costas invocava Deus nessas horas. No final das contas, não era nada tenebroso, pelo contrário.
A ambulância ainda se mantinha perto, tocando sirene, tentando se afastar, e mais algumas vezes o cara repetiu seu mantra. O ônibus, então, acabou se distanciando e tomou seu rumo, longe do barulho da sirene. Porém, de súbito, as palavras aterradoras ressoaram em meus ouvidos novamente. "Não é possível! O que afinal significa isso?!" E mais outras tantas vezes o mantra se repetiu, no mesmo tom de sempre.
Desci na Praça Saens Peña, enquanto o homem se mantinha no ônibus. Será que ia ocorrer algum cataclisma? Seria o cara um homem-bomba que ia explodir o ônibus? Ou ele apenas estava nervoso com alguma situação de sua vida que iria ocorrer? Iria ele se matar? Ou era apenas um louco?
Nunca descobrirei isso, mas persiste a sensação em mim de que escapei de algo terrível...

domingo, maio 07, 2006

Paixão aprisionada

Um milagre divino! Ainda que os internautas não tenham nem notado diferença, eu fiquei uma eternidade fora do blog e agora, por um problema, resolvi voltar (estranho, não?). Ia participar do concurso Contos do Rio, organizado por O GLOBO, com o texto abaixo, mas como é normal comigo, acabei deixando para cima da hora, o que até não seria um empecilho se meu conto não acabasse passando do máximo de caracteres permitido no concurso. Tentei colocar nos padrões, mas não deu certo e não deu tempo.
Pois bem, desse jeito acabei conseguindo criar um texto e aproveito para postá-lo aqui (ainda que eu pudesse ter postado meus textos antigos). Má leitura!
***
Finalmente chegara o momento de agir. Ele não mais poderia esperar.
O carcereiro pega seu molho de chaves e, com o prato seguro na outra mão, abre a cela. A comida é colocada de qualquer jeito no chão de concreto e a porta é novamente trancada. Ouvindo os passos do carcereiro ressoarem à distância, o presidiário pega com avidez o prato e leva a colher à boca repetidamente, sofregamente, em uma velocidade surpreendente.
Largando o prato no chão, ele limpa sua longa barba desgrenhada com as costas da mão e emite um sonoro arroto. Tudo bem que a comida era uma porcaria, mas que diferença fazia isso agora? Esperando ainda um pequeno tempo, ele resolve que já está na hora. Apoiando-se na balaustrada da cama miserável, o velho enfia, num rompante, o dedo indicador na goela. O vômito é lançado a seus pés e ele desaba de joelhos, quase em cima da imundície.
Os sons chamam a atenção do carcereiro, que surge à porta e vê o homem ajoelhado, tiritando, uma poça a sua frente.
- Mas que diabos está acontecendo, cara? Vem aqui!
Com um braço apoiando-o, o guarda leva o cambaleante presidiário para um pequeno quarto, ao mesmo tempo em que brada por seu companheiro. Depois de acomodarem mal e mal o preso, os carcereiros decidem limpar-lhe os resquícios do vômito e aquecê-lo com um cobertor. Quando estão contactando um médico, vêem, aliviados, o doente adormecer. Apesar disso, um deles fica de guarda à porta fechada do quarto, enquanto outro vai vigiar os demais delinqüentes.
Dentro do cômodo, o presidiário abre os olhos lentamente. Perscrutando o ambiente, ele se certifica de que está sozinho e se levanta, se livrando do cobertor, que já o fazia suar. Sem o mínimo sinal de debilidade, anda com decisão para perto da janela e começa a trabalhar. Como as instalações ali são precárias e não são fiscalizadas há muito tempo, não havia problema algum em forçar uma passagem. É preciso menos de um minuto para escancarar a janela e pular para fora.
Correndo em desabalada carreira, ele escala o muro e cai do outro lado, rolando pela calçada. Logo se levanta e continua correndo pelas ruas, como se ainda estivesse na flor da idade. Raimundo não iria esperar que o médico chegasse e os carcereiros se dessem conta de sua burrice. Burrice, sim, ainda que eles estivessem há apenas duas semanas naquela prisão, pois a rotatividade no cargo era grande. E o presidiário se valeu disso para enganar mais uma vez a lei. O delegado, que já estava há um bom tempo trabalhando ali, não era muito de aparecer e nem devia se importar com suas fugas.
Agora seu objetivo está bem próximo. Já podia avistá-lo, grandioso, pessoas e mais pessoas a sua volta, um coro de vozes reboando, o êxtase alimentando sua agilidade. Raimundo já sabe para onde deve se dirigir. Embrenhando-se na multidão para despistar seus perseguidores, mas depois se afastando dela, ele chega a um recanto abandonado. Olhando ao redor, o presidiário se aproveita de sua magreza e se espreme por entre as grades. Ainda que saiba o caminho a seguir, Raimundo tem toda a precaução do mundo e espera ansiosamente.
Depois do que parece uma eternidade, um homem atarracado aparece no terreno e abre um sorriso. Os dois se abraçam e querem saber como o outro está, mas isso não demora e logo ambos estão andando por um caminho estreito, em silêncio. Chegam a uma porta depois de certo tempo e Raimundo não consegue se controlar. Passando à frente de seu amigo, ele ultrapassa o portal e se vê em meio à multidão novamente. A porta bate às suas costas e o presidiário, ao olhar para baixo, percebe que chegara no momento glorioso.
O coro à sua volta aumenta mais ainda quando surgem de uma escada vinte e dois homens, acompanhados de crianças, quase todos vestindo a mesma camisa que Raimundo tem no corpo, camisa essa da qual ele se separaria só quando morresse, ainda que estivesse bem gasta e suja. Olhando para os milhares de pessoas aglomeradas naquele grande estádio que era o Maracanã, para a multidão vibrante e multicolorida, ele sente uma paz maravilhosa.
Mas uma paz que não iria durar muito tempo. Logo se inicia um dos jogos mais aguardados pelo presidiário, a final do Estadual entre Flamengo e Fluminense, e Raimundo passa a ser o torcedor que mais sofre, que mais cobra, que não tira os olhos da bolinha que rola e salta de um lado para outro do campo. O espetáculo o hipnotiza e o leva às lágrimas quando seu time, mesmo sob pressão do adversário, abre o placar aos 15 minutos. Raimundo pula mais que todos os outros torcedores, gritando como um alucinado, abraçando todo mundo.
Mas o jogo se mantém equilibrado, os dois times atacando e contra-atacando. O intervalo entre os tempos chega e, só aí, o detento resolve verificar se algum policial está vindo em seu encalço, se ele corre perigo. Porém, tudo parece tranqüilo, como sempre.
O segundo tempo começa e a alegria de Raimundo não dura muito, pois o Fluminense empata em jogada espetacular, calando o presidiário e a torcida ao seu redor. Ainda haveria várias jogadas de tirar o fôlego, bolas na trave e até brigas que resultariam em expulsões para os dois lados, mas nada de gol. Com as unhas bastante roídas, o velho torcedor vê, sem acreditar, o juiz concluir o jogo, levando-o para os pênaltis.
Raimundo se senta e fecha os olhos, sem querer olhar as angustiantes cobranças. Sabendo que o Flamengo iria começar, ele adivinha os acontecimentos pelas reações dos torcedores. Vibra intimamente com os acertos de seu time e os erros do outro, até que não agüenta mais ficar sem ver. Abre os olhos e aguarda a cobrança do Flamengo, que pode garantir o título. Apesar de ser ateu, ele pede a Deus que o jogador acerte.
O atleta corre para a bola e chuta. O goleiro se joga e espalma a bola. Enquanto ele comemora, Raimundo se desespera. Contudo, o inimaginável acontece: a bola faz uma curva e, espetacularmente, sem que o goleiro tenha tempo de reagir, adentra o gol.
O presidiário não se contém e grita tresloucado. Pleno de alegria, ele corre por entre a multidão e sai do estádio, pulando e cantando o hino do Flamengo com toda a força. Agora que seu sonho se realizara, agora que conseguira ver seu tão amado time, ainda mais sendo campeão, ele podia voltar em paz para a prisão, pois estava satisfeito.
Todavia, nem precisa se esforçar muito, pois um policial se aproxima dele e lhe coloca as algemas, pondo-o com facilidade na viatura. Raimundo já se regozija só de pensar que terá novas oportunidades de rever seu time, pois suas fugas, uma vez por mês pelo menos, são infalíveis. Ele só não sabe é que tudo isso é possível porque os carcereiros sempre são preparados pelo delegado para deixar Raimundo fugir e voltar feliz da vida à prisão.
***
Em tempo: o concurso exigia que o conto se passasse no Rio de Janeiro e que tivesse como assunto o futebol. Só queria não estragar a surpresa antes.

quinta-feira, março 23, 2006

...munMUNmundoDOdo...

Estou de volta com meus textos "reeditados", com mais uma história, que nem sei bem se está bem elaborada. Mas foi apenas uma ideiazinha que quis colocar na tela. Deixem de ler!
***
Nudmo Odnum adora ler. Não perde a oportunidade de ler em todos os lugares onde está, não importa a situação. Até no caminho que faz a pé de um lugar a outro, lá está ele lendo. E é por isso que Nudmo caminha pela praça nesse momento, alheio a tudo, apenas concentrado no livro em frente ao seu rosto. Transeuntes se irritam com seu descaso e muitos esbarram nele. Mas ele não se importa, nem quando um motorista o xinga, passando rente ao menino.
A história é muito interessante e tem muito a ver com ele: conta sobre um garoto que, gostando muito de ler, resolveu andar perto de casa, até o dentista, lendo um livro, não se preocupando com o resto ao redor. Seu livro trata de um menino apreciador da leitura, que não larga o livro um minuto, até quando anda pelas ruas num tremendo frio.
Mas Nudmo não pôde saber do assunto do livro do garoto que estava na história do livro do menino, cuja história era contada no livro de Nudmo. Dessa vez o esbarrão é mais forte e o menino leitor cai no chão, só vendo que dois homens correm pela praça a sua frente, levando o livro. Nudmo esquece-se completamente do dentista e, aficionado pela história misteriosa, corre em desabalada carreira atrás dos ladrões.
O garoto vê os dois desaparecerem ao dobrarem a esquina e, aflito, aumenta a velocidade, sentindo o vento gelado fustigar seu corpo. Na rua seguinte, ele avista um vendedor de rua anunciando promoções e, de relance, vê a capa de seu livro. Rapidamente, ele pára e, com sua mesada, compra-o. Agora Nudmo não precisa mais se preocupar. Só precisa reiniciar de onde parara.
O livro do segundo menino diz ser sobre um menino que adora ler... mas era a mesma coisa! Achando que a seqüência interminável ocuparia o livro todo, Nudmo se espanta ao ler que o menino do livro não conseguira ler o resto porque fora derrubado e roubado. Mas, sem se importar com os compromissos, o garoto perseguiu os delinqüentes até dar de cara, por acaso, com o livro desejado.
Nudmo já está zonzo com aquilo tudo. Ele segue mais no livro e percebe que teria de interrogar o vendedor acerca dos bandidos. Só um teste, pois a resposta já está estampada nas páginas do livro.
- Viu dois homens correndo com um livro na mão?
- É claro, foram para lá. - ele aponta uma porta estreita numa casa verde ali perto - Roubaram você?
Nudmo nem responde, espantado que está com os fatos iguais, assim como acontecia com o menino do livro, ao ler seu próprio livro. Será que o livro teria sua vida toda? Mas ele é bem pequeno. Então iria até que parte? Ele resolve não olhar mais à frente, deixando a curiosidade de lado; não quer saber do futuro próximo. Quem sabe ele não morreria daqui a pouco? "Estou ficando maluco!", pensa o garoto, adentrando a casa verde com o livro na mão, marcado na parte em que parara.
Agora ele se encontra num hospício. Nudmo está assustado diante dos homens e mulheres que o fitam com olhares débeis e que agem de modo estranho. Um dos enfermeiros surge, saindo de um quarto, com o livro de Nudmo nas mãos. Mas ele não é um dos ladrões. O menino corre para o enfermeiro, mas é barrado por outro no corredor.
- O que você está fazendo aqui? Os loucos já te deram esse maldito livro? Muitos deles vieram parar aqui por causa dele. Largue isso! Não leia!
Ele arranca o livro da mão de Nudmo e se afasta, decidido. Estarrecido, o garoto só consegue olhar para o lado, para dentro do quarto ao lado, cuja porta está aberta. Lá dentro, estão os bandidos que Nudmo perseguia, mas com camisas-de-força. Ou haviam lido o livro ou queriam continuar a lê-lo, depois de loucos.
"Puxa, será que isso é verdade? Um mero livro não vai fundir a cabeça de ninguém!" Um paciente se aproxima e lhe estende furtivamente outro exemplar do livro que o enfermeiro levou embora. Dizendo "com os cumprimentos de Napoleão", o maluco se distancia.
A curiosidade é mais forte e Nudmo folheia o livro até a parte em que o vendedor respondia a sua pergunta. Depois disso, os acontecimentos se repetiam detalhadamente. O menino já está assustado, imaginando se ele mesmo não estaria na verdade num livro, uma vida inventada por outros. Da mesma forma que o menino do livro agia.
A história continua depois com a reaparição do enfermeiro, repreendendo Nudmo e dizendo:
- Garoto, você está ficando maluco! Esse livro está te prendendo, não percebe? Ele não vai te revelar nada! Me dê ele aqui. É sério!
Parecia a Nudmo que ele ouvia um eco da fala do livro. Pensando que a maluquice já está agindo, o menino levanta a cabeça e dá de cara com o mesmo enfermeiro que lhe confiscou o livro. Ele volta a olhar para o livro e vira a página, ávido por saber do resto. Mas só há uma folha em branco, sem nenhuma letra. O que aquilo quer dizer?
Olha novamente para o enfermeiro, no exato momento em que a palavra "sério" sai de sua boca. Seu rosto enfurecido é a última coisa que vê antes que tudo se torne alvo. Para sua mente, tudo ao redor, até seu próprio corpo, some. E ele perde a noção do mundo.

quinta-feira, março 16, 2006

"Um corpo na gaiola"

Juntando-se a meu habitual esquecimento, veio o início da faculdade para desestabilizar meus posts aqui, mas estou de volta agora. Este é outro dos textos meio desatualizados, mas que vale a pena postar, ainda mais que é um gancho para outro post. Aqui relato a morte de meu passarinho e suas "consequências". Não leiam!
***
Num sábado de manhã, fui dar uma olhada nos "meninos" - como chamamos nossos passarinhos - e me deparei com uma cena imprevisível: na gaiola da direita, um deles estava estendido no chão, imóvel. Olhei bem e percebi que havia sangue junto às patas e ao bico dele, além de no pote de areia, que estava no canto oposto a ele, um pouco acima do fundo. O sangue era maior perto de seu bico aberto.
Desconfiei da esposa do falecido, Nicoll, uma linda mandarim parda, que brigara muitas vezes com o marido e dava muita bola para o macho vizinho, Joe. Numa daquelas brigas, ela poderia ter machucado "Rabudinho", o esposo, só para ficar com o outro. Olhei prontamente para ela, procurando vestígios de sangue, mas nada vi. Era pouco provável que ela conseguisse fugir de uma gaiola para outra, ainda tendo que brigar com a outra fêmea, Janaína. A não ser que tivesse um plano engenhoso em mente.
Resolvi chamar um médico para me informar melhor e, quando telefonava, minha irmã chegou. Tive de informá-la da má notícia, dizer-lhe que o pássaro durara pouco mais que um mês e meio. Triste, ela retirou cuidadosamente o corpo da gaiola e, juntos, analisamos. Logo vimos como ele morrera: o bico por dentro estava todo sujo de sangue, logo ele cuspira sangue por causa de hemorragia. Daí a grande quantidade de sangue junto ao bico. Mas por que isso acontecera? E como o sangue fora parar no pote, junto à base, justamente do lado oposto para onde o bico estava virado?
De repente, a campainha tocou. Quem seria? Abri-a de chofre e dei de cara com o médico, acompanhado por dois tiras. Ele encarregou-se de explicar que achara melhor chamarem policiais para investigar. Assenti e deixei-os entrarem. Os três foram para a sala, onde minha irmã colocara o corpo num papel-toalha, em cima de um móvel. A luz batia próximo ao morto, incidindo também nas "meninas" - dessa vez, são as nossas jabotas - que tomavam banho de sol. Nessa cena pitoresca, o médico-legista analisou o corpo detidamente e confirmou nossa hipótese, além de supor que o pássaro morrera há pouco tempo, entre uma hora e duas horas atrás. Mesmo assim, ainda iria fazer uma autópsia para tirar qualquer dúvida.
Agora era a vez de olhar a cena do crime. O médico e os policiais criticaram minha irmã por não deixar o corpo do jeito que estava, ainda mais que ela não usara luvas, estragando possíveis digitais. Ela colocou o corpo de volta ao seu lugar, e nossas suposições continuaram a ser confirmadas, mas o sangue do pote, por enquanto, continuava indecifrável.
Os policiais chamaram a mim e a minha irmã para nos fazerem perguntas. Afastados das gaiolas, nos revelaram que Nicoll era a principal suspeita, ainda mais que era muito parecida com a famosa assassina procurada pela lei, apelidada de Viuvinha-negra. Olhei espantado para Nicoll, que me lançou um olhar indiferente. Os tiras a interrogaram e tiraram suas digitais para comparar com as da assassina. Todos os outros pássaros, inclusive os calafates que vivem no viveiro em baixo, deram depoimentos, mas não se chegou a nada: eles estavam tomando banho ou comendo ou fazendo cafuné um no outro, em suas vidas atarefadas e estressantes. Até as meninas depuseram, mas elas alegaram que tinham uma visão muito ruim, além de nem terem orelhas.
Desanimados, os três foram embora, prometendo ligar para dar notícias, e deixaram um telefone de contato. Ficamos em casa sem fazer nada, encucados com aquilo tudo, enquanto os passarinhos ficaram torrando nosso saco, pedindo recompensas por responderem perguntas tão enfadonhas, querendo que trocassem a água da banheira ou dessem arrozinho ou vitamina. As jabotas resolveram repetir a tática e começaram a pedir peixe. Irritado, coloquei-as na cozinha e tranquei a porta, enquanto nos refugiávamos na sala.
Nessa hora, foi a vez de meu pai chegar, depois de andar de bicicleta. Espantado, ele foi bombardeado por informações que começamos a dar sobre a morte de "Rabudinho", que meu pai cismava de chamar de Zento; o pássaro novo não recebera um nome fixo, por não entrarmos em consenso, e acabara morrendo assim. Nosso pai observou a gaiola, intrigado, sem entender o que acontecera.
Depois de muita reflexão, ele entendeu tudo - ou pensava que tinha entendido - quando o telefone tocou. Era um dos tiras, dando o resultado da autópsia e fornecendo as hipóteses. Meu pai conversou com ele e confirmou tudo: o passarinho morrera por causa de um fio de náilon do ninho, que ele gostava de ficar puxando. O fio acabou machucando-o e assim ele morreu. Já sabendo que Nicoll não era a Viuvinha-negra, o tira chamou nosso pai para depor.
Porém, ele não voltou da delegacia. Liguei para lá e descobri que ele fora preso por homicídio doloso, pois comprara aquele ninho e, mesmo sabendo do fio, não fez nada para tirá-lo. Com raiva, fomos para o lugar onde ele estava temporariamente encarcerado e, lá, começamos a discutir com os policiais, argumentando. Os tiras nos acalmaram, dizendo que logo, logo meu pai iria sair da cela, pois ninguém ficava muito tempo na prisão.
Ainda com raiva, saímos da delegacia e fomos para casa. Eu ainda estava desconfiado da Nicoll, mas não tinha provas. Zento, o verdadeiro, o pseudo-imortal, sempre vivera bem até Nicoll chegar e acabara morrendo, talvez por causa do amante Joe. E agora, o substituto dele, "Rabudinho", morrera. Muita coincidência. Para mim, não importava: continuaria a chamá-la de Viuvinha-negra.
Hoje, uma semana depois, Nicoll continua sem marido, mas ainda não fez nenhuma tentativa de fugir de sua gaiola. O corpo já foi enterrado num vaso com terra por minha mãe. Meu pai já está livre e, dentre em pouco, comprará outro mandarim para fazer companhia a Nicoll. Talvez uma maldição pese sobre ela e, depois de um tempo, haverá a terceira vítima...

sexta-feira, março 03, 2006

ADIV

Não se desesperem, mas eu voltei mesmo! Retornei de uma viagem e já estou pronto para outra, pelos textos que escrevi. Não aproveitem!
***
"Do pó vieste, para o pó voltarás." O citado pó começa a se juntar, a tomar corpo, formando a carne, constituindo o ser. Gradualmente, se chega ao resultado final: um ser humano. Ele está usando uma roupa predominantemente preta, sapatos, e está enclausurado num grande compartimento de madeira.
Outros seres humanos, em meio a blocos de pedra, mármore, granito, começam a cavar e, findo o trabalho, retiram da terra o receptáculo. Este é aberto e o ser vivo é carregado até um hospital, sem esboçar movimento algum. Logo que é tirada sua roupa e colocada uma nova, toda branca, o homem abre os olhos e seu rosto demonstra sofrimento e dor. Tudo conseqüência da falta da roupa preta: esta o protegia do mundo e de suas intempéries; agora ele está frágil.
Davi, é o nome do homem, é tratado bem, recebendo visitas dos parentes, até que sara e sai do hospital. Ele é um homem idoso, cheio de rugas e cabelos brancos, e ainda tem muito o que viver, apesar de todo o conhecimento em sua mente. Depois de um tempo, começa a trabalhar e a viver mais intensamente.
Lentamente, com o passar do tempo, sua pele se alisa e seus cabelos vão ficando mais escuros. Ele começa seus estudos, vai à escola e encontra seus amigos, sem grandes preocupações, recompensado pelos vários anos de trabalho.
Com o tempo, quanto mais Davi rejuvenesce e encolhe, menos conhecimento ele tem do mundo e mais admirado com ele Davi fica. Mas chega a um ponto em que nem mais andar e falar ele sabe. Chegou a hora decisiva. Davi é levado para um hospital e cuidadosamente tratado por médicos. Uma mulher, Triz Rage, que sempre os ajuda, já está de prontidão.
Deitada no leito de operação e anestesiada, ela tem sua barriga cortada e, no buraco misterioso, Davi desaparece. Tudo é costurado e Triz sai do hospital para voltar a sua vida. Durante 270 dias, Davi vai involuindo e, gradualmente, volta ao pó.
...
Todo esse processo maravilhoso, e verdadeiro, que acabou de ser relatado só foi possível graças à tecnologia inovadora, de última geração, da Assistência Dirigida à Inversão da Vivência, ou simplesmente ADIV. Nossa equipe sempre está à disposição, pronta a atender possíveis interessados. Confie em nós e tenha uma vida fora de série.

domingo, fevereiro 19, 2006

Historinha do dia

Senta que lá vem história!
Dois homens trabalhavam na mesma empresa e tinham salas próximas uma da outra. Jonas nunca fora com a cara de Rogério e só raramente ambos se cumprimentavam.
Jonas, certo dia, resolveu fazer uma brincadeira com o colega de trabalho. Fez com que os dois se encontrassem no corredor da empresa e começou a falar com o outro, com a cara mais limpa do mundo:
- Ontem fui e tinha. Encontrei ninguém que podia ser que não era.
Era apenas uma brincadeira das mais bobas. Jonas acordara aquele dia querendo curtir com a cara de alguém tão sério quanto Rogério. O colega olhou para Jonas com expressão de ponto de interrogação. O piadista já estava pronto para o ataque de raiva.
- Não me diga o que isso quer dizer. Tenho que descobrir sozinho.
- Mas, Rogério...
- Não adianta, sou capaz.
O homem sério se afastou rapidamente, decidido, deixando Jonas boquiaberto.
No dia seguinte, o piadista viu Rogério levar um esporro por ter chegado muito atrasado no trabalho. O submisso estava muito pálido e com grandes olheiras. Acabado o sermão, ele se dirigiu na direção de Jonas, frouxo. Parou em sua frente e falou:
- Eu sou um incapaz mesmo! Por favor, me diga o significado!
Jonas se espantou muito. O homem ainda estava pensando nisso! Mas ele achou que era a situação perfeita.
- Te dizer? Claro que não! Falei aquilo pra todo mundo da empresa e só você não vai entender? Me poupe, né? - e Jonas se retirou, triunfante.
Durante os dias posteriores, Rogério não apareceu em sua sala, nem na empresa tampouco. Jonas não dava a menor importância; o outro não lhe fazia falta. Mas o tempo foi passando e o outro não dava nenhum sinal, ninguém sabia dele.
Até que um dia a notícia se espalhou pela empresa: Rogério estava em casa, em estado terminal. Jonas correu para lá, mesmo não entendendo nada, movido pela curiosidade. Rogério estava rodeado por poucos familiares, com a aparência terrível, deitado em sua cama. Jonas se aproximou, mas foi Rogério que se adiantou, falando debilmente:
- Jonas... estou às portas da morte... Antes que eu vá, preciso que você me explique seus dizeres... Por favor...
Jonas não acreditava em seus ouvidos. Tudo por causa de uma brincadeira. Ele precisava remediar tudo.
- Rogério, você entendeu tudo errado. Meus dizeres não tinham nem pé nem cabeça mesmo. Era só uma brincadeira com você.
- Não, não, Jonas... Eu sei que você quis dizer alguma coisa... Se você não revelar, vou piorar... E você sabe o que acontecerá...
Jonas não tinha escolha. Só havia uma saída: inventar.
- Rogério, eu só quis dizer que tinha ido para a Bienal e, como tinha muita gente, não encontrei ninguém conhecido.
Rogério sorriu, finalmente de posse do conhecimento. Fechou os olhos e, com o sorriso ainda no rosto, morreu serenamente.